Pesquisadores da área de engenharia biomédica da Universidade de Brasília (UnB) anunciaram que o equipamento Rapha, voltado ao tratamento e cura de feridas crônicas como o pé diabético, entrou na fase final de submissão à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A expectativa é de que o processo seja concluído ainda neste semestre, permitindo que a empresa disponibilize o produto ao mercado médico-hospitalar.

A doença, que afeta milhares de brasileiros, registra cerca de 50 mil amputações por ano no país. O novo dispositivo promete atuar justamente na prevenção desses casos — um avanço celebrado pela equipe coordenada pelos professores Suélia Rodrigues e Adson Ferreira.

O Projeto Rapha reforça o papel estratégico da UnB no desenvolvimento científico em saúde. O equipamento está prestes a entrar em produção comercial em parceria com a Life Care Medical, que participou do processo de fabricação e certificação do dispositivo. O nome Rapha é uma homenagem a São Raphael, santo associado à cura.

Segundo o professor Mário Fabrício, integrante do grupo de pesquisa, o produto já conta com registro do Inmetro e aguarda apenas o certificado regulatório da Anvisa, previsto para ser emitido nos próximos 60 dias. “Nossa expectativa é de que, em breve, o equipamento seja oferecido ao SUS a um preço bem acessível”, afirma.

Dez anos de pesquisa até a maturidade tecnológica

Foram cerca de dez anos até que o equipamento atingisse o nível final de desenvolvimento. A patente foi conquistada em 2016; entre 2017 e 2020, ocorreram os testes pré-clínicos e clínicos em ambulatórios e hospitais; e, em 2022, foi concluída a transferência tecnológica para o setor privado. O apoio da Finatec e de instituições como Ministério da Saúde, FAP-DF, CNPq, Capes, além de emendas parlamentares, foi essencial para a continuidade do projeto.

O dispositivo combina uma lâmina de látex natural e luz LED, dois materiais simples que, integrados à pesquisa científica, resultam em uma tecnologia capaz de evitar amputações de membros inferiores em pacientes com feridas crônicas.

Novas descobertas: tecnologia sem uso de animais

O avanço proporcionado pelo Projeto Rapha permitiu que o grupo desenvolvesse novas soluções, como o Chip-Eny, plataforma nacional baseada na metodologia organ-on-a-chip. O sistema simula em laboratório processos complexos, como a angiogênese, sem a necessidade de testes em animais — substituindo o uso de cães, macacos, coelhos ou roedores.

O Chip-Eny já passou por etapas de desenvolvimento técnico e ensaios in vitro, garantindo registro de titularidade compartilhado entre a UnB e o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM). A expectativa é de que a nova tecnologia possa, no futuro, aprimorar o tratamento realizado com a lâmina de látex e luz LED. A pesquisa, porém, ainda está em curso.

A transferência dessa inovação para o mercado depende de parceiros privados — um desafio recorrente na chamada pesquisa translacional, responsável por transformar descobertas científicas em produtos de saúde. A Agência de Comercialização de Tecnologias (ACT/UnB) já iniciou contatos com empresas interessadas no Chip-Eny.

Histórico de soluções para a saúde

Outro exemplo bem-sucedido do grupo é o Projeto Máscara Vesta, desenvolvido durante a pandemia de Covid-19. A solução ajudou pacientes em todo o país e continua disponível no mercado. “Esse é mais um trabalho que demonstra toda a potencialidade da UnB nas pesquisas científicas e tecnológicas”, conclui o professor Fabrício.