O Distrito Federal aparece entre os principais focos de uma investigação que apura o uso de recursos destinados à qualificação profissional por uma organização social ligada à empresária Karina Ferreira da Gama, responsável pela produtora Go Up Entertainment, envolvida na produção do filme “Dark Horse”, que retrata a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Reportagem publicada pelo Intercept Brasil revela que o Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização presidida por Karina, recebeu contratos milionários para a realização de cursos profissionalizantes e programas de capacitação financiados por unidades do Serviço Social da Indústria (SESI). Parte desses recursos teria sido destinada a finalidades diferentes das previstas nos contratos, segundo documentos, auditorias e investigações citadas pela publicação.

O Distrito Federal ganha destaque no caso porque uma parcela significativa dos recursos investigados teria origem em contratos firmados com o SESI-DF. A entidade foi contratada para executar programas de formação profissional voltados à população de baixa renda, mas relatórios de auditoria apontaram falhas na comprovação das atividades realizadas, inconsistências em listas de presença, ausência de documentação adequada e dificuldades para comprovar a efetiva prestação dos serviços contratados.

Segundo a investigação, auditorias identificaram casos de alunos que não teriam participado dos cursos apesar de constarem como beneficiários dos programas. Também foram encontrados indícios de despesas sem comprovação suficiente e pagamentos questionados pelos órgãos de controle. Os documentos analisados indicam que parte dos projetos apresentava resultados inferiores aos contratados, levantando suspeitas sobre a correta aplicação dos recursos.

A investigação ocorre paralelamente a outras apurações envolvendo o Instituto Conhecer Brasil. Em São Paulo, a entidade já havia sido alvo de operação policial relacionada a um contrato de aproximadamente R$ 108 milhões para implantação de internet gratuita em comunidades da capital paulista. Na ocasião, investigadores apontaram suspeitas de superfaturamento e desvio de recursos públicos.

O caso ganhou ainda mais repercussão nacional após o nome de Karina Ferreira da Gama aparecer ligado à produção do filme “Dark Horse”. A obra, anunciada como uma cinebiografia de Jair Bolsonaro, passou a ser alvo de questionamentos após apontarem possíveis conexões entre empresários próximos ao ex-presidente, investidores do mercado financeiro e pessoas envolvidas na captação de recursos para o projeto.

As revelações surgem em meio às investigações sobre a relação entre integrantes da família Bolsonaro e o empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Reportagens anteriores indicaram negociações envolvendo aportes milionários para a produção cinematográfica. O filme é considerado um dos principais projetos audiovisuais ligados ao campo político conservador para o período pré-eleitoral.

Embora as auditorias e investigações apontem indícios de irregularidades, até o momento não há condenação judicial contra os responsáveis pela ONG ou pela produtora. Em manifestações públicas, os envolvidos negam qualquer desvio de recursos e afirmam que os contratos foram executados dentro das exigências legais, sustentando que as acusações ainda estão sob análise dos órgãos competentes.

No Distrito Federal, o caso repercute entre representantes do setor produtivo e agentes políticos por envolver recursos destinados à formação profissional de trabalhadores. A expectativa é que os órgãos de controle aprofundem a apuração sobre os contratos celebrados com o SESI-DF, bem como a destinação dos valores repassados à entidade investigada.