O diagnóstico de câncer de mama mudou a vida de Larissa Lima. Durante o tratamento, porém, uma notícia abriu caminho para um novo projeto: a possibilidade de praticar canoagem com outras mulheres que enfrentaram a doença. Anos depois, ela preside a Associação Canomama, em Brasília, organização que reúne sobreviventes do câncer de mama e utiliza o esporte como ferramenta de acolhimento, bem-estar e reconstrução de projetos de vida.

A história da associação ganha destaque durante o Outubro Rosa, campanha internacional de conscientização sobre o câncer de mama. Além de reforçar a importância da prevenção e do diagnóstico precoce, a trajetória das integrantes da Canomama chama a atenção para os desafios enfrentados após o tratamento e para o papel do apoio coletivo nesse processo.

Larissa Lima é idealizadora da Associação. Foto: Divulgação

Fundada em 2015, a iniciativa começou com 12 participantes. Atualmente, segundo a associação, o grupo reúne 72 mulheres sobreviventes da doença. A principal atividade é o Dragon Boat, modalidade de canoagem coletiva em que a sincronização dos movimentos é essencial para o deslocamento da embarcação. O barco utilizado pela equipe comporta 22 pessoas: 20 remadoras, uma tamborista, responsável por marcar o ritmo das remadas, e uma timoneira, que conduz a embarcação.

O trabalho da associação vai além das atividades esportivas. A organização conta com profissionais voluntários de áreas como educação física, canoagem, fisioterapia, psicologia, nutrição e medicina, que contribuem para o acompanhamento e o bem-estar das participantes.

A ideia de criar a associação surgiu quando Larissa ainda enfrentava o tratamento contra o câncer de mama. Entre uma sessão de quimioterapia e outra, ela recebeu a visita do amigo e treinador Marcelo Bosi, que apresentou informações sobre um movimento internacional de utilização do Dragon Boat por mulheres sobreviventes da doença.

A proposta despertou em Larissa a vontade de levar a experiência para o Brasil. “Eu estava semimorta, não sabia ao certo o que o futuro me esperava, mas aquela notícia foi uma bomba de esperança em meu coração e eu entendi que, se sobrevivesse, iria implementar esse projeto tão lindo”, recorda.

Após concluir o tratamento, Larissa retomou o contato com Marcelo e iniciou, ao lado da fisioterapeuta oncológica Nádia Gomes e do educador físico Tissiano, um trabalho para estruturar a iniciativa.

Foram aproximadamente seis meses de pesquisas, visitas, conversas e levantamento de referências até a organização do projeto-piloto. A experiência deu origem à Canomama e transformou uma expectativa individual em uma rede de apoio para outras mulheres.

A proposta passou a oferecer não apenas a oportunidade de praticar atividade física, mas também um espaço de convivência, troca de experiências e construção de novos objetivos depois do tratamento.

Companheirismo e força são fundamentais para a sincronia no esporte. Foto: Divulgação

Festival reuniu mulheres de sete países

O crescimento da associação levou a experiência iniciada no Lago Paranoá para além de Brasília. Em 2022, a Canomama promoveu o 1º Festival de Dragon Boat de Mulheres Sobreviventes do Câncer de Mama e o 1º Encontro Nacional de Remadoras Rosa.

Os eventos reuniram delegações da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Panamá, Estados Unidos e Canadá. Durante quatro dias, as participantes compartilharam experiências, participaram de atividades de formação e disputaram práticas e regatas de Dragon Boat. A programação também incluiu ações de promoção da saúde, atividades culturais, palestras e a Cerimônia das Flores, homenagem às mulheres que morreram em decorrência da doença.

O encontro contribuiu para aproximar equipes brasileiras e estrangeiras e fortalecer o movimento das remadoras rosa. As conquistas esportivas também passaram a integrar a trajetória da associação. Em 2025, a equipe alcançou o lugar mais alto do pódio em competições realizadas no Canadá e no Chile, segundo a organização.

Os resultados reforçam a proposta de combinar esporte, convivência e promoção da qualidade de vida para mulheres que passaram pelo câncer de mama.

Projeto prevê atender 60 mulheres em situação de vulnerabilidade

A Canomama iniciou uma nova etapa com o projeto Elas Navegam – Dragon Boat, voltado a 60 mulheres sobreviventes do câncer de mama em situação de vulnerabilidade social, prioritariamente moradoras do Distrito Federal.

A iniciativa prevê formação prática em canoagem e ações voltadas à autonomia, à inclusão social, ao trabalho em equipe e ao bem-estar físico e emocional das participantes.

Para ampliar o alcance do trabalho, a associação também busca fortalecer sua estrutura de gestão e sua capacidade de captar recursos. Nesse processo, a organização participou de uma formação promovida pela Rede CT – Capacitação e Transformação, representada por Juliana Martins Alves e Fernanda Jordão Formiga. De acordo com a iniciativa, a Canomama alcançou 100% de aproveitamento na primeira etapa e avançou para uma assessoria especializada na elaboração de projetos e na submissão de propostas ao Ministério do Esporte.

“A Canomama já desenvolvia um trabalho consistente e de forte impacto social. O papel da Rede CT foi contribuir para que essa experiência também se traduzisse em maior capacidade de estruturar projetos, acessar mecanismos de financiamento e buscar sustentabilidade para ampliar sua atuação. O aproveitamento de 100% na formação mostra o comprometimento da organização com esse processo de fortalecimento”, afirma João Vitor Storino, coordenador regional de mobilização do CT.

Durante a formação, a associação teve acesso a conteúdos sobre elaboração e execução de projetos, captação de recursos, gestão financeira, comunicação, equidade e prestação de contas. Após a assessoria, a organização submeteu uma proposta ao Ministério do Esporte e aguarda a análise.

A Rede CT é realizada pelo Instituto Futebol de Rua e pela Rede Igapó, com patrocínio de Itaú e B3. A iniciativa busca fortalecer organizações sociais esportivas das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, oferecendo capacitação para estruturar projetos e ampliar o acesso a mecanismos de financiamento.

Vida depois do câncer

A trajetória da Canomama mostra como uma experiência de esperança durante a quimioterapia pode se transformar em uma iniciativa coletiva. O projeto, que começou com 12 mulheres, reúne hoje dezenas de sobreviventes e busca ampliar o atendimento a quem enfrenta dificuldades sociais.

A programação de formação em Dragon Boat inclui atividades sobre a composição da tripulação, os comandos da modalidade e os procedimentos de segurança. Em outubro, estão previstas capacitações sobre primeiros socorros, salvamento e segurança em ambiente aquático, além de conteúdos sobre organização esportiva, incentivo ao esporte, terceiro setor e proteção das mulheres.

Em novembro, a formação deve avançar para o planejamento de atividades, técnicas básicas de remada e preparação prática de timoneiras, tamboristas e remadoras. Para a associação, o desafio agora é ampliar a estrutura e garantir condições para que mais mulheres tenham acesso às atividades.

A história de Larissa e das integrantes da Canomama reforça que a recuperação não termina necessariamente com o fim do tratamento. Retomar a rotina, reconstruir vínculos e encontrar novos objetivos também fazem parte desse percurso. Para essas mulheres, a canoagem representa a possibilidade de seguir em frente — com outras pessoas ao lado e no mesmo ritmo.