Cultivo de marmelo no Entorno do DF mantém tradição iniciada há mais de dois séculos
11 janeiro 2026 às 10h02

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O cultivo do marmelo no Entorno do Distrito Federal é uma herança que atravessa gerações e se consolidou como patrimônio cultural de Goiás. A história do doce, se confunde com a de Luziânia: tudo iniciou quando o Quilombo Mesquita, fazia parte do município de Luziânia, antes da emancipação de Cidade Ocidental. O fruto sustenta uma tradição secular que transforma a colheita em ritual e a produção do doce em símbolo de identidade regional.
O principal pomar está no Mesquita, região do município de Cidade Ocidental, à cerca de 10 quilômetros do centro da cidade. O marmelo amadurece nos meses de janeiro e fevereiro e dá origem ao doce preparado no tacho de cobre, seguindo uma receita passada de geração em geração. É esse saber antigo que mantém viva a tradição, fazendo da colheita um momento coletivo e da marmelada um elo entre passado e presente.

Entre os principais guardiões dessa história está a família de Carlúcio Miguel Laquias, reconhecida como a que produz marmelada há mais tempo na região, com início em 1815. Há 211 anos, a tradição vem sendo passada desde sua bisavó, Ana dos Passos de Araújo Melo, mantendo viva uma das mais antigas expressões da cultura alimentar-cultural goiana.
“Começou com a minha bisavó, passou para a minha avó, depois para o meu pai e hoje continua comigo”, conta Carlúcio, que desde criança participa do processo artesanal. Atualmente, ele atua na produção da marmelada ao lado da esposa, Kelle Dias, responsável pelo preparo do doce, enquanto o filho, Jorge, cuida da embalagem, garantindo o padrão das tradicionais caixinhas de madeira, além de outros colaboradores que atuam na linha de produção. Carlúcio fica à frente das vendas e da distribuição.
A produção segue normas sanitárias atuais, com tachos de inox, mas mantém a receita original, feita apenas com marmelo, água e açúcar. A família p3roduz entre 14 e 16 toneladas por ano, distribuídas para Goiás, Distrito Federal, Minas Gerais e Tocantins, em um modelo típico da agricultura familiar.

O maior produtor de marmelo do Entorno do DF
Se a família de Carlúcio preserva a tradição mais antiga da marmelada, o título de maior produtor de marmelo da região do Entorno pertence ao produtor rural Sinval Pereira Braga, de 70 anos. Dono de um pomar com 140 pés de marmelo, ele mantém viva a cultura do fruto reunindo a família em torno do cultivo e da colheita. “Alguns me ajudam no cultivo do marmelo, filha e netas ajudam na preparação da polpa para fazer o doce. É tudo feito em família”, relata.
A relação de Sinval com o marmelo vem de longe. A produção começou com o pai, ainda no século passado, e nunca foi interrompida. “Mesmo depois que ele faleceu, em 1967, a gente continuou. Tem um pé de marmelo ali que foi ele quem plantou quando era jovem. É uma árvore centenária, que dá marmelo até hoje”, diz, orgulhoso.
Para ele, o fruto representa continuidade. “O marmelo é algo que veio dos meus pais e que vai ficar para meus filhos, meus netos, bisnetos. Isso não tem preço”, resume.
Festa do Marmelo
O Quilombo Mesquita recebe anualmente a Festa do Marmelo, celebração que une cultura, agricultura familiar e identidade local, inspirada na resistência do fruto colhido apenas uma vez por ano. O evento transforma a colheita em encontro, reunindo moradores e visitantes em torno da tradição.
Para a secretária interina do Entorno do DF, Paula Tredicci, a festa traduz o que há de mais forte na região. “O Entorno tem muito orgulho das suas tradições. Elas fortalecem o sentimento de pertencimento, valorizam a história das comunidades e mostram que desenvolvimento também passa por respeitar e preservar aquilo que nos forma como povo”, destaca.
Entre pomares centenários, tachos no fogo e receitas preservadas por mais de dois séculos, o marmelo segue como símbolo de resistência cultural no Entorno do DF, reafirmando a força da tradição goiana.
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