Golpes financeiros evoluem no Brasil e usam dados reais, engenharia social e até IA
18 janeiro 2026 às 14h45

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Os golpes financeiros no Brasil deixaram de ser ações isoladas e improvisadas para virar operações cada vez mais sofisticadas — e difíceis de identificar. Com uso de dados reais, falsas situações de urgência, centrais de atendimento fraudulentas e até inteligência artificial, criminosos têm explorado vulnerabilidades emocionais e digitais para aplicar fraudes em larga escala, afetando diretamente o orçamento e a segurança financeira das famílias.
Segundo Raimundo Nonato, presidente da Associação Brasileira de Defesa dos Clientes e Consumidores de Operações Financeiras e Bancárias (ABRADEB), as quadrilhas passaram a reproduzir o comportamento do consumidor e a usar o próprio ambiente digital como arma. “Hoje, os criminosos combinam engenharia social — como pressão psicológica, senso de urgência e falsa autoridade — com informações verdadeiras”, afirma.
Um dos exemplos citados é o golpe do falso advogado, em que dados públicos de processos são usados para criar uma narrativa convincente e induzir a vítima a fazer pagamentos, muitas vezes via Pix.
Além disso, as fraudes têm ganhado aparência cada vez mais técnica. Entre os casos mais comuns está o golpe do acesso remoto, conhecido como “mão fantasma”, em que a vítima é convencida a instalar programas que permitem o controle do celular à distância. “Também cresce o uso de clonagem de voz e deepfakes, o que torna ligações e mensagens extremamente realistas”, alerta Nonato.
Golpes mais comuns em 2025
De acordo com o presidente da ABRADEB, entre as fraudes bancárias mais recorrentes registradas em 2025 estão:
- clonagem ou troca de cartão;
- golpe do WhatsApp, com criminosos se passando por familiares e pedindo dinheiro;
- golpe da central falsa;
- Pix falso;
- uso indevido de CPF via SMS;
- golpes de leilões e lojas virtuais falsas.
Para Nonato, a principal mudança nos últimos anos está no método. “Hoje há menos invasão técnica e mais persuasão. Na maioria das vezes, não é o sistema do banco que é violado, mas sim a confiança da vítima”, diz. Segundo ele, as quadrilhas atuam em escala, com roteiros bem definidos, falsas centrais e abordagens testadas constantemente.
Outro ponto que preocupa é o nível de realismo. “Os criminosos usam dados verdadeiros, informações de cadastros e redes sociais e, em alguns casos, recorrem a voz ou imagem sintética. Isso aumenta muito o poder de convencimento”, completa.
Quem é mais alvo
Embora qualquer pessoa possa ser vítima, os criminosos costumam agir em momentos de fragilidade. “A fraude escolhe a vulnerabilidade, e ela pode aparecer em qualquer idade”, afirma. Ainda assim, pesquisas divulgadas em 2025 indicam aumento da incidência entre idosos, chegando a 44% em determinados recortes.
Trabalhadores também aparecem entre os principais alvos, especialmente por causa da pressa do dia a dia, do medo de bloqueio de contas e do aumento das compras online. Já pessoas endividadas ficam mais expostas a falsas promessas de crédito ou regularizações “urgentes”.
Prejuízo vai além do dinheiro perdido
Os impactos das fraudes, segundo Nonato, não param no golpe em si. “O prejuízo costuma sair do salário, da reserva financeira ou de um benefício. A partir daí, a família entra em efeito cascata: cheque especial, crédito rotativo, atraso de contas e cancelamento de planos, como viagens, reformas e até tratamentos de saúde”, explica.
Quando o golpe atinge benefícios ou pessoas em maior vulnerabilidade, o cenário pode ser ainda mais grave. “Há casos em que descontos e operações indevidas comprometem a própria subsistência do consumidor”, alerta.
Atuação da ABRADEB
Nonato diz que a ABRADEB atua na orientação das vítimas, na organização de provas e em medidas coletivas para responsabilização e reparação. Entre os casos de maior repercussão está uma ação coletiva, em parceria com a ANCED, envolvendo empréstimos e consignados feitos em nome de crianças e adolescentes.
A associação também oferece apoio jurídico e orientação para que consumidores saibam como agir diante de abusos e fraudes bancárias, principalmente quando há repetição de condutas. O trabalho inclui orientação sobre documentação, análise de padrões e suporte em ações coletivas de alcance nacional.
“O consumidor não precisa pagar para buscar ajuda. A filiação à ABRADEB é gratuita”, reforça Raimundo Nonato. A entidade mantém ainda um canal de denúncias no site, onde é possível relatar abusos e anexar informações para ajudar no mapeamento de recorrências e no fortalecimento da proteção coletiva.
