Policias civis e tribunais do Distrito Federal, Goiás, Minas Gerais e Santa Catarina atuaram de forma conjunta para apurar o uso indevido de credenciais de servidores públicos em sistemas do Judiciário. A investigação apura tentativas de alterações no Banco Nacional de Mandados de Prisão (BNMP), incluindo consultas irregulares e mudanças em dados sensíveis.

A apuração é conduzida pela Delegacia Especial de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DRCC/Decor), da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), com apoio do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e dos núcleos de inteligência e segurança dos tribunais envolvidos. Segundo as autoridades, não houve invasão direta aos sistemas, mas sim o uso criminoso de senhas funcionais obtidas de forma ilegal.

Durante a operação, foram cumpridos quatro mandados de busca e apreensão em Goiás e no Distrito Federal. As investigações apontam que as credenciais foram utilizadas para tentar cumprir mandados de prisão de forma indevida e para a inserção, alteração e exclusão de dados judiciais.

O delegado da PCDF, João Guilherme, explicou que a investigação começou de forma independente em cada estado até chegar a um mesmo grupo suspeito. Segundo ele, “cada estado constatou a obtenção ilícita de credenciais de servidores públicos, e essas investigações convergiram para um mesmo grupo criminoso, com atuação principalmente em Goiás e no Distrito Federal”.

O delegado destacou ainda que um dos principais envolvidos já havia sido identificado anteriormente pela PCDF. “Esse principal atuante já tinha sido identificado por tentar fazer alterações em sistemas governamentais usando credenciais obtidas de forma ilegal”, afirmou.

Sobre a forma como as senhas eram obtidas, João Guilherme esclareceu que não houve ataque direto ao sistema do CNJ. “Não foi invasão ao site do CNJ. Segundo relato do próprio menor apreendido, as credenciais foram obtidas por meio de links falsos, o que chamamos de engenharia social ou phishing”, disse. De acordo com ele, após obter login e senha, os suspeitos tentavam acessar diversos sistemas governamentais, incluindo o BNMP.

Questionado sobre o número de envolvidos, o delegado informou que a dimensão do grupo ainda depende do avanço das investigações. “Há a atuação de várias pessoas, em âmbito nacional, de diferentes estados, mas, por enquanto, não é possível divulgar mais detalhes por causa do sigilo”, afirmou.

Sobre possíveis citações envolvendo autoridades, o delegado da PCDF afirmou que não possui informações confirmadas. “Esses dados chegaram até nós, mas pedimos que sejam checados junto à Polícia Civil de Goiás ou, possivelmente, à Polícia Federal. No Distrito Federal, não temos elementos objetivos para confirmar isso”, declarou.

Ainda segundo João Guilherme, os investigados podem responder por diferentes crimes. “Pode haver responsabilização por invasão de dispositivo eletrônico, organização criminosa e, dependendo da apuração financeira, até lavagem de dinheiro”, explicou.

O delegado também comentou a participação de menores no esquema. “Esse menor é um dos principais atuantes do grupo e há indícios de ligação com hackers que repassavam credenciais para uso e até comercialização ilegal na internet”, afirmou.

Em Goiás, o delegado Caio Menezes informou que as credenciais obtidas eram usadas e vendidas em ambientes virtuais. Segundo ele, “o material obtido era negociado na dark web e em outros meios, o que mostra como esse tipo de crime tem migrado para o ambiente digital”.

Representantes do Tribunal de Justiça de Goiás informaram que as fraudes foram detectadas pela gerência de segurança da informação do CNJ, que identificou a subtração de credenciais de servidoras do tribunal. De acordo com a apuração, uma dessas credenciais foi usada para inserir processos fraudulentos no sistema Projudi, enquanto outra permitiu a alteração de dados de mandados de prisão.

Segundo a investigação, foram identificadas 102 alterações feitas com a credencial de uma única servidora. Entre elas, houve a inserção e alteração de dois mandados de prisão, um em nome do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e outro em nome do ministro Alexandre de Moraes. As autoridades informaram que as irregularidades foram detectadas imediatamente e não geraram prejuízo ou benefício a terceiros.

A Polícia Civil de Minas Gerais também participou da operação após identificar mandados que apareciam como cumpridos no sistema, embora as pessoas ainda estivessem em liberdade. O delegado Marceliano explicou que “não houve fraude direta no sistema de Justiça, mas uma falha grave no uso das credenciais, o que gerou preocupação para o funcionamento do sistema”.

Ele ressaltou que todas as ações ocorreram com autorização judicial. “Ninguém entrou na casa de ninguém sem autorização. Foram apenas cumpridos mandados de busca e apreensão, sem prisões”, afirmou.

As autoridades informaram que os materiais apreendidos ainda serão analisados e compartilhados entre as polícias dos estados envolvidos. As investigações continuam, e novos desdobramentos poderão ser divulgados, respeitando o sigilo necessário para a apuração dos fatos.