A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) deflagrou, nesta quinta-feira (25), a Operação Ecossistemas do Cobre para desarticular uma organização criminosa suspeita de atuar na receptação de cabos de cobre furtados, lavagem de dinheiro, crimes tributários e emissão de notas fiscais falsas. A Justiça determinou o bloqueio de R$ 239,2 milhões em bens, direitos e valores dos investigados.

Ao todo, são cumpridos 26 mandados de busca e apreensão no Distrito Federal, Minas Gerais, Tocantins e Paraná. A operação é coordenada pela Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Ordem Tributária (Decor), com apoio das polícias civis de Minas Gerais e Tocantins.

Segundo as investigações, o esquema era formado por dois núcleos criminosos que atuavam em etapas diferentes da cadeia de comercialização do cobre, mas se beneficiavam mutuamente.

O primeiro grupo é suspeito de comprar e revender cobre proveniente de furtos de cabos de energia, telefonia e internet no Distrito Federal. De acordo com a PCDF, pessoas físicas e empresas ligadas ao setor de sucatas receberam mais de R$ 45,5 milhões em menos de um ano de uma empresa de fachada sediada no Tocantins, sem apresentar notas fiscais que justificassem os pagamentos.

Já o segundo núcleo era responsável por dar aparência de legalidade ao material por meio de empresas fictícias. A investigação identificou 21 empresas de fachada registradas no Distrito Federal, conhecidas como “noteiras”, todas em nome de laranjas, sem funcionários, estrutura física ou movimentação compatível.

Mesmo sem atividade econômica real, essas empresas emitiram mais de R$ 1,4 bilhão em notas fiscais para uma única empresa localizada no Tocantins.

De acordo com a polícia, os documentos fiscais eram usados para “esquentar” o cobre furtado e gerar créditos tributários fraudulentos. Na sequência, a empresa tocantinense emitia novas notas fiscais e revendia o material principalmente para uma grande empresa do setor metalúrgico e de condutores elétricos em Minas Gerais.

Mais de 73% das notas fiscais emitidas pela empresa de fachada tinham como destino essa companhia mineira. Somente em 2021, foram identificadas 212 notas fiscais que somavam aproximadamente R$ 97,1 milhões.

A investigação também revelou a dimensão financeira do esquema. A empresa de fachada movimentou mais de R$ 1,8 bilhão em apenas 11 meses, entre 2023 e 2024. Além disso, segundo a PCDF, foram sacados mais de R$ 25,5 milhões em dinheiro vivo pelo operador da empresa.

Os investigadores apontam ainda indícios de lavagem de dinheiro, com repasses de dezenas de milhões de reais para pessoas físicas sem atividade comercial ou capacidade financeira compatível com os valores recebidos.

As apurações mostram que o mercado clandestino do cobre furtado era altamente organizado. Conversas interceptadas indicam que receptadores disputavam fornecedores, negociavam preços conforme a origem do material e até planejavam acompanhar cargas roubadas para descobrir quais depósitos concorrentes estavam recebendo o cobre.

Segundo a polícia, o chamado “cobre mel”, considerado o de maior pureza, era negociado por cerca de R$ 43 o quilo em agosto de 2024. Já o cobre reconhecido pelos receptadores como proveniente de furtos era comprado por valores entre R$ 28 e R$ 30 o quilo. Em uma das negociações investigadas, um comprador chegou a pagar R$ 42,50 por quilo para garantir exclusividade na entrega da carga.

O nome da operação faz referência ao funcionamento integrado dos dois grupos criminosos: enquanto um abastecia o mercado com cobre furtado, o outro utilizava empresas fictícias e notas fiscais fraudulentas para dar aparência de legalidade às mercadorias e ocultar a origem ilícita do material.

Os investigados poderão responder pelos crimes de organização criminosa, receptação, crimes contra a ordem tributária, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica, conforme o envolvimento de cada um nas investigações.