Uma fiscalização do Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal (CRM-DF) identificou problemas nas escalas médicas do Hospital Regional do Paranoá, principalmente nos serviços de Ginecologia e Obstetrícia e no Centro Obstétrico. Segundo o conselho, durante cerca de 20 dias de acompanhamento, foram registrados pelo menos 17 turnos com apenas um médico ginecologista-obstetra de plantão ou sem a devida rendição da equipe.

O CRM-DF afirma que o hospital enfrenta uma insuficiência recorrente de médicos e opera, em diversos momentos, no limite da capacidade. Para o conselho, a situação pode comprometer procedimentos ginecológicos, atendimentos obstétricos de urgência e emergência e a continuidade da assistência a gestantes e recém-nascidos.

A entidade encaminhou um ofício à Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) cobrando medidas para recompor o quadro de profissionais e garantir a cobertura adequada das escalas.

Sobrecarga das equipes

De acordo com o CRM-DF, a falta de profissionais pode fazer com que médicos permaneçam no hospital mesmo após o término do plantão, diante da ausência de trabalhadores para assumir a escala seguinte.

O Sindicato dos Enfermeiros do Distrito Federal (SindEnf-DF) também relatou acompanhar casos de sobrecarga e dificuldades relacionadas à composição das equipes de enfermagem na unidade.

Para o sindicato, a falta de profissionais aumenta a pressão sobre os trabalhadores e pode afetar tanto as condições de trabalho quanto a qualidade e a segurança do atendimento prestado aos pacientes.

Atendimento a partos foi restringido

Outro ponto apontado pelo CRM-DF é a mudança no perfil das gestantes atendidas para parto no hospital. Segundo o conselho, a Secretaria de Saúde passou a restringir o atendimento a gestantes com 37 semanas completas ou mais. Antes, a unidade atendia gestantes a partir de 34 semanas.

O CRM-DF afirma, no entanto, que a mudança não elimina a necessidade de manter equipes médicas em quantidade suficiente para garantir a segurança dos atendimentos. Para a entidade, medidas de contingenciamento não substituem uma solução permanente para o déficit de profissionais.

Entre as medidas solicitadas pelo CRM-DF estão um planejamento com cronograma para recomposição das escalas, garantia de rendição dos médicos ao fim dos plantões e acompanhamento permanente das condições de funcionamento do serviço.

O conselho também defende a adoção de medidas para evitar sobrecarga, adoecimento e afastamento dos profissionais. A entidade afirma ainda que eventuais contratações emergenciais ou terceirizações devem ser temporárias e não substituem a realização de concursos públicos e políticas para valorização e fixação dos profissionais na rede pública.

Caso grave no Gama

A jovem Flávia Andressa, de 24 anos, esteve internada no Hospital Regional do Gama para dar à luz. Segundo familiares, a paciente passou por uma cesariana de emergência e, posteriormente, apresentou um quadro de hemorragia grave.

De acordo com o relato da família, após o nascimento da criança, Flávia precisou ser encaminhada para uma unidade de terapia intensiva (UTI) e passou por novas intervenções cirúrgicas. A família afirma que ela também apresentou uma hemorragia interna, identificada posteriormente por exame de imagem.

A tia da paciente afirma que Flávia permaneceu afastada da filha durante parte do período de recuperação. Segundo ela, a recém-nascida precisou receber complementação com fórmula enquanto a mãe permanecia internada.

Em depoimento à reportagem, a familiar também questionou a demora para a realização do parto e atribuiu o agravamento do quadro a uma possível falha no atendimento médico. “A minha sobrinha foi internada dia 17 no Hospital do Gama para ganhar neném. Ela chegou com fortes dores, e eles ficavam enrolando e enrolando para faze o parto. Ela começou a gritar e eles viram o pezinho do neném para o lado de fora. Tipo empurrou o pezinho e correram para o centro cirúrgico. Fez uma cirurgia, cesariana. A neném nasceu e a minha sobrinha perdeu muito sangue e mandaram ela para a UTI do HMIB”, conta desesperada.

A Secretaria de Saúde foi questionada sobre esse caso e não respondeu à reportagem do Jornal Opção Brasília/ Entorno. A Secretaria de Saúde do Distrito Federal também foi procurada para informar se reconhece o déficit apontado pelo CRM-DF, qual é o atual quadro de profissionais do hospital e quais medidas estão sendo adotadas para recompor as escalas. A pasta foi questionada sobre a restrição no atendimento a gestantes com menos de 37 semanas.

Até a publicação da reportagem, a SES-DF não havia respondido aos questionamentos. O espaço permanece aberto para manifestação.