“Dinheiro da saúde é para salvar vidas, não para socorrer banco”, diz Grass sobre R$ 120 milhões aplicados no BRB
02 outubro 2026 às 16h40

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O candidato ao Governo do Distrito Federal Leandro Grass (PT) intensificou as cobranças à governadora e candidata à reeleição Celina Leão (PP) após documentos registrarem a transferência de R$ 120 milhões do Fundo de Saúde do Distrito Federal para o Banco de Brasília (BRB) e a aplicação dos recursos em um Certificado de Depósito Bancário (CDB).
Grass levou o caso ao último debate antes do primeiro turno, realizado na terça-feira (29), e voltou a questionar a finalidade da movimentação. Para o candidato, os recursos deveriam permanecer destinados às necessidades da rede pública de saúde. “Dinheiro da saúde é para salvar vidas. Não é para socorrer banco”, afirmou Grass ao cobrar explicações da governadora.
Durante o debate, o petista foi além e associou a movimentação à crise financeira enfrentada pelo BRB. “A Celina pegou o dinheiro do Fundo de Saúde, que era para estar investido em hospital, em unidades básicas de saúde. Sabe para onde ela mandou? Para o BRB. Para tentar tapar o rombo que o Ibaneis criou e o Gustavo também, que é o vice da Celina”, declarou.
A afirmação de que o dinheiro teria sido movimentado com a finalidade de “tapar o rombo” do BRB é uma acusação de Leandro Grass. Os documentos consultados confirmam a transferência e a aplicação financeira, mas, por si só, não comprovam essa finalidade.
R$ 120 milhões foram transferidos para o BRB
O Ofício nº 259/2026, da Secretaria de Saúde do Distrito Federal, registra que os R$ 120 milhões foram movimentados em 21 de setembro, saindo de uma conta do Fundo de Saúde no Banco do Brasil com destino a uma conta no BRB.
Há um detalhe na cronologia que também passou a ser questionado por Grass. O ofício foi emitido em 22 de setembro, um dia depois da movimentação financeira, e informa que a solicitação ocorria “para a devida regularização e adequada identificação em futuras conciliações”.
Grass destacou justamente a diferença entre a data da transferência e a formalização administrativa. “O governo pegou R$ 120 milhões do Fundo de Saúde e aplicou no BRB, num CDB, num tipo de investimento. É isso mesmo. E tem um detalhe. Primeiro eles mexeram no dinheiro. Só no dia seguinte, 22 de setembro, fizeram o ofício pedindo a transferência ‘para a devida regularização’”, afirmou.
Os documentos tiveram a autenticidade verificada por veículos de imprensa por meio dos códigos disponíveis no Sistema Eletrônico de Informações (SEI) do Governo do Distrito Federal.
Aplicação rendeu quase R$ 58 mil em um dia
Os registros também mostram o caminho percorrido pelo dinheiro após chegar ao BRB.
Os R$ 120 milhões foram aplicados em CDB, com recompra no dia seguinte. Segundo documento do próprio banco, a operação gerou R$ 57.898,80 em rendimento. O montante passou, portanto, para R$ 120.057.898,80.
Em 23 de setembro, o Fundo de Saúde solicitou ao BRB uma nova aplicação desse valor, desta vez com prazo até 5 de outubro. No mesmo dia, o banco informou ter atendido à solicitação.
A sequência das operações passou a ser usada por Grass para questionar por que recursos vinculados à Saúde foram direcionados para uma aplicação financeira no banco público do DF justamente no momento em que o BRB enfrenta dificuldades financeiras. “Ele não tirou para aplicar na saúde. Ele tirou para aplicar no BRB”, declarou o candidato.
Grass questiona se operação buscou reforçar BRB
Em novas declarações sobre o episódio, Grass levantou a hipótese de que a movimentação teria sido realizada para reforçar temporariamente a posição financeira do BRB.
Segundo ele, Celina estaria “usando o dinheiro da saúde” para “capitalizar o BRB e maquiar os dados”. Essa conclusão, no entanto, não está comprovada pelos documentos tornados públicos até o momento. Os registros demonstram a movimentação dos recursos e as aplicações financeiras, mas não estabelecem que a finalidade tenha sido alterar artificialmente indicadores do banco.
Também não há, até o momento, decisão de órgão de controle estabelecendo irregularidade na operação.
A legislação federal, porém, estabelece regras específicas para os recursos da União transferidos aos fundos de Saúde de estados, municípios e Distrito Federal. A Lei Complementar nº 141/2012 determina que esses valores sejam movimentados, até sua destinação final, em contas específicas mantidas em instituição financeira oficial federal.
Orientações do Ministério da Saúde também estabelecem que transferências realizadas pelo Fundo Nacional de Saúde ficam depositadas em instituições financeiras federais sob a titularidade dos respectivos fundos de Saúde.
Operação chega ao TCDF
A movimentação dos R$ 120 milhões também chegou ao Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF).
O deputado distrital Gabriel Magno (PT) apresentou representação pedindo a suspensão e a reversão da transferência dos recursos para o BRB. O parlamentar questiona a legalidade da operação e sustenta que recursos federais do SUS possuem regras específicas de custódia e aplicação.
A apresentação da representação, entretanto, não significa que o Tribunal tenha concluído que houve irregularidade. Caberá ao TCDF analisar os argumentos e a documentação apresentada.
“Para onde foram os R$ 12 bilhões?”
No debate, Grass também relacionou o episódio à crise mais ampla enfrentada pelo BRB e voltou a questionar as operações realizadas pelo banco nos últimos anos. “Ela quer tirar o seu dinheiro, o dinheiro da saúde, o dinheiro do seu benefício social, o dinheiro da educação para tapar o rombo do roubo. R$ 12 bilhões de reais, R$ 12 bi. Sumiram do BRB. Foram para onde?”, declarou.
A afirmação de que R$ 12 bilhões teriam “sumido” do BRB também representa uma acusação do candidato. O valor aparece no debate político relacionado às operações do BRB com ativos ligados ao Banco Master, mas não corresponde, até o momento, a um prejuízo definitivamente estabelecido nesse montante.
Grass tem usado a situação do banco como um dos principais pontos de crítica à administração Celina Leão e ao governo anterior de Ibaneis Rocha (MDB).
Celina rebate Grass, mas não detalha operação
Celina Leão rebateu as declarações do adversário e acusou Grass de trabalhar contra o BRB. “O candidato Leandro Grass trabalha contra o BRB, desde o primeiro dia. Ele não tem a altura dessa cidade. Ele fala mal desse banco o tempo todo. Ele é do PT, ele poderia ter ajudado com aval, pedido ao Lula, mas, assim, ele trabalha contra o banco. Essa foi uma opção que ele fez”, afirmou a governadora.
A assessoria de Celina também classificou as acusações do candidato como falsas e afirmou que haveria uma articulação da oposição para prejudicar o BRB.
Nas manifestações localizadas até o momento, porém, a governadora não detalhou a finalidade específica da transferência dos R$ 120 milhões do Fundo de Saúde nem explicou por que o dinheiro foi aplicado em CDB no BRB.
A reportagem procurou o Governo do Distrito Federal, a Secretaria de Saúde e o BRB para esclarecer qual foi a justificativa técnica para a transferência, qual é a origem exata dos recursos, se todo o montante corresponde a repasses federais do SUS, qual norma fundamentou a aplicação no BRB e quando o dinheiro retornará à conta de origem.
O espaço permanece aberto para manifestação do GDF, da Secretaria de Saúde e do BRB.
