BRB sem balanço e orçamento sob pressão: as contas que Celina terá de explicar em 2027
04 novembro 2026 às 13h15

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A governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), iniciará seu novo mandato, em janeiro de 2027, diante de uma questão que ultrapassa a crise do Banco de Brasília (BRB): como recuperar a instituição financeira sem comprometer o equilíbrio das contas públicas. O desafio envolve a necessidade de recomposição bilionária do capital do banco, a falta de demonstrações financeiras atualizadas e as restrições orçamentárias anunciadas pelo próprio governo.
As dificuldades do BRB tiveram origem nas operações realizadas com o Banco Master durante a gestão de Ibaneis Rocha (MDB), quando Celina ocupava a vice-governadoria. Embora afirme não ter participado das negociações e ter sido contrária à operação, a atual governadora passou a responder politicamente pela recuperação da instituição após assumir o Executivo, em março.
O BRB estima que pelo menos R$ 8,8 bilhões em créditos adquiridos sejam inexistentes, apresentem indícios de fraude ou tenham recuperação considerada difícil. A dimensão do problema exige medidas de capitalização para que o banco volte a atender às exigências prudenciais do Banco Central.
A principal alternativa defendida pelo GDF envolve um financiamento de até R$ 6,6 bilhões, negociado com o Fundo Garantidor de Créditos (FGC). A operação, entretanto, enfrenta entraves relacionados às garantias exigidas.
Como acionista controlador, o Distrito Federal tem interesse direto na recuperação do BRB. Isso não significa que toda a dívida do banco será automaticamente transferida ao Tesouro, mas eventuais aportes, garantias e obrigações assumidas pelo governo poderão produzir consequências para as finanças públicas.
Balanço pendente amplia questionamentos
Um dos pontos mais sensíveis da crise é a ausência de demonstrações financeiras atualizadas do BRB. Durante a campanha eleitoral, Celina vinculou a divulgação dos resultados à conclusão das negociações para obtenção do financiamento destinado à recuperação da instituição.
A declaração levantou uma questão central: como dimensionar a situação patrimonial do banco e avaliar a suficiência dos recursos buscados sem a apresentação pública de informações financeiras atualizadas?
O próprio FGC já havia solicitado demonstrações contábeis para analisar a viabilidade da operação. A divulgação do balanço é fundamental para esclarecer a extensão das perdas, a capacidade de recuperação da instituição e os riscos associados às alternativas de capitalização.
Além do financiamento em discussão com o FGC, a governadora mencionou negociações com instituições financeiras do exterior. Até o momento considerado nesta reportagem, não havia confirmação da liberação dos R$ 6,6 bilhões pretendidos.
Governo anuncia recuperação fiscal, mas números exigem explicações
A crise bancária ocorre paralelamente às dificuldades orçamentárias reconhecidas pelo GDF. Desde que assumiu o cargo, Celina anunciou revisão de contratos, restrições de despesas e medidas de contenção de gastos. A governadora também afirmou ter encontrado um desequilíbrio bilionário nas finanças do Distrito Federal.
Em maio, o secretário de Economia, Valdivino José de Oliveira, apresentou déficit orçamentário de R$ 1,9 bilhão referente ao primeiro quadrimestre de 2026. Em agosto, o governo passou a trabalhar com um cenário mais amplo, próximo de R$ 5,4 bilhões, ao considerar também despesas contratadas que, segundo a Secretaria de Economia, não estavam adequadamente previstas no orçamento.
Os valores, contudo, representam conceitos diferentes. O resultado orçamentário de determinado período não pode ser confundido com a estimativa de despesas futuras sem cobertura suficiente. Apesar das dificuldades apontadas, a equipe econômica projetou encerrar 2026 com superávit, chegando a mencionar a possibilidade de um resultado de até R$ 5 bilhões. Mas para isso, vem aumentando a tarifação para arrecadar mais.
Orçamento de R$ 80 bilhões não elimina pressão sobre as contas
Para 2027, o GDF encaminhou à Câmara Legislativa uma proposta orçamentária de aproximadamente R$ 49,8 bilhões, além de R$ 30,32 bilhões previstos para o Fundo Constitucional do Distrito Federal.
O conjunto representa cerca de R$ 80,12 bilhões em recursos projetados, mas não corresponde a dinheiro livremente disponível para qualquer finalidade. Parte das receitas possui destinação específica, enquanto despesas obrigatórias limitam a capacidade de remanejamento.
Na proposta, educação e saúde aparecem entre as áreas de maior previsão de gastos, com R$ 9,3 bilhões e R$ 8,01 bilhões, respectivamente, no orçamento próprio.
O governo afirma ter elaborado o planejamento de 2027 com despesas compatíveis com as receitas estimadas, buscando evitar a previsão de déficit.
Entretanto, o equilíbrio apresentado no projeto depende da concretização da arrecadação prevista, do controle das despesas e da capacidade de administrar obrigações que possam surgir ao longo do exercício.
Outro fator de preocupação é a possibilidade de mudanças nas regras de cálculo do Fundo Constitucional. Em setembro, Celina alertou para uma eventual redução de R$ 1,8 bilhão nos recursos destinados ao DF em 2027.
O custo da recuperação ainda precisa ser esclarecido
A questão central para o próximo mandato não será apenas conseguir o financiamento necessário ao BRB, mas demonstrar como a operação será estruturada e quais responsabilidades poderão ser assumidas pelo Distrito Federal.
Entre os pontos que exigem esclarecimento estão o valor definitivo das perdas, a origem dos recursos para capitalização, as garantias oferecidas e os eventuais impactos sobre a capacidade financeira do governo.
Também será necessário demonstrar se os cortes anunciados ao longo de 2026 produziram economia efetiva e como a administração pretende manter os investimentos e serviços públicos previstos no orçamento.
No plano de governo, Celina assumiu compromissos relacionados ao fortalecimento do BRB, à transparência, ao controle de gastos e à responsabilidade fiscal. As diretrizes, porém, não apresentam metas numéricas detalhadas para todas essas frentes.
A partir de janeiro, a governadora terá de transformar esses compromissos em resultados verificáveis. O desafio será conciliar a recuperação de um banco público atingido por operações sob investigação com a necessidade de preservar a capacidade de investimento do Distrito Federal.
