Os ataques dos Estados Unidos à Venezuela, que resultaram na captura do presidente Nicolás Maduro na madrugada de sábado (3), provocaram reações em vários países e também acendem um alerta no Distrito Federal. Dados da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) apontam que o DF abriga atualmente 3.857 imigrantes venezuelanos, número que pode crescer conforme o desenrolar da crise.

Após a operação, o governo norte-americano informou que Maduro e a primeira-dama, Cilia Flores, foram levados aos Estados Unidos, onde devem responder por suposto envolvimento com o tráfico internacional de drogas. As autoridades americanas também declararam que pretendem administrar a Venezuela até que seja possível uma transição considerada segura.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou ainda que empresas americanas passarão a controlar o setor de petróleo venezuelano, país que possui as maiores reservas confirmadas de óleo e gás do mundo.

A captura de Maduro gerou manifestações em diversas partes do mundo. Segundo agências de notícias internacionais, houve atos de venezuelanos em países da América Latina e na Espanha, em cidades como Bogotá, Lima, Quito e Madri, com registros tanto de comemorações quanto de protestos contrários à ação americana.

Na Cidade do México, grupos favoráveis e contrários à intervenção se reuniram em frente às embaixadas da Venezuela e dos Estados Unidos, o que exigiu intervenção policial para evitar confrontos. Em Buenos Aires, manifestantes contrários protestaram em frente à embaixada americana, enquanto outro grupo comemorou a captura de Maduro no Obelisco. Também houve protestos e celebrações em cidades dos Estados Unidos, como São Francisco e Nova York.

Mesmo com o anúncio do governo americano, o Supremo Tribunal de Justiça da Venezuela decidiu que a vice-presidente executiva, Delcy Rodríguez, deve assumir a presidência interina do país. Em Caracas, moradores foram às ruas contra a intervenção. Durante uma das manifestações, o venezuelano José Hernandez classificou a operação como criminosa.

Em entrevista ao Jornal Opção Entorno, o internacionalista João Coser, disse que o movimento migratório dos venezuelanos no Brasil segue um padrão já conhecido. “O processo migratório venezuelano ocorre em etapas relativamente bem estruturadas no Brasil. Em geral, os imigrantes entram pelo estado de Roraima, onde realizam o primeiro registro nos postos de atendimento”, explicou. Ele destacou que nesse primeiro momento os migrantes passam pela regularização de documentos e obtenção de CPF, o que permite acesso a serviços básicos como o Sistema Único de Saúde.

Após essa fase, muitos seguem para outros estados por meio do processo de interiorização. “Esse movimento pode ocorrer por indicação do próprio programa de acolhimento, por oportunidades de emprego previamente mapeadas ou por iniciativa individual, quando o migrante já possui familiares ou redes de apoio em outras regiões”, afirmou.

De acordo com Coser, Brasília ocupa um papel importante nesse contexto. “A capital abriga hoje uma comunidade venezuelana expressiva e diversa, composta tanto por profissionais qualificados, como médicos que passaram pelo processo de revalidação de diploma, quanto por pessoas em situação mais vulnerável, que dependem de moradias compartilhadas e apoio institucional”, disse.

O especialista avalia que o momento atual pode gerar dois caminhos distintos. “Muitos venezuelanos manifestam o desejo de retornar ao país de origem caso haja uma melhora concreta das condições políticas e de segurança. Mesmo integrados à vida no Brasil, o vínculo com a Venezuela permanece forte”, pontuou.

Por outro lado, ele alerta para os riscos de agravamento da crise. “Caso haja escalada de instabilidade ou intervenções externas com presença militar prolongada, a tendência é de piora da situação humanitária. A experiência histórica mostra que a convivência prolongada com tropas armadas gera insegurança e deterioração das condições de vida”, afirmou.

Nesse cenário, segundo Coser, o Brasil pode continuar sendo um destino de refúgio. “Brasília, especificamente, pode absorver parte desse fluxo, tanto como ponto de interiorização quanto como local de reorganização familiar e busca por oportunidades econômicas”, concluiu.

Desde 2014, cerca de 20% da população da Venezuela deixou o país, conforme dados da plataforma R4V. A Colômbia recebeu cerca de 2,8 milhões de venezuelanos, e o Peru, 1,7 milhão. Na Espanha, que abriga aproximadamente 400 mil imigrantes do país, venezuelanos relataram à Reuters sentimentos divididos entre preocupação e esperança em relação ao futuro da Venezuela.