O Jornal Opção Entorno ouviu dois analistas políticos para comentar a caminhada realizada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), que percorreu cerca de 240 quilômetros entre Paracatu, no noroeste de Minas Gerais, e Brasília, no Distrito Federal. A mobilização foi encerrada no último domingo (25), após quase uma semana de trajeto, com um discurso na Praça do Cruzeiro, cercado por milhares de manifestantes.

Durante a chegada, Nikolas Ferreira fez críticas ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e afirmou que o objetivo da mobilização era “despertar o país”. Segundo o deputado, o Brasil viveria um “pesadelo terrível”. A caminhada foi transmitida ao longo da semana pelas redes sociais do parlamentar, com registros do percurso, da exposição dos pés inchados e de denúncias de supostas tentativas de infiltração de pessoas ligadas à esquerda. De acordo com ele, essas situações motivaram o uso de um colete à prova de balas durante o trajeto.

O protesto teve como principal motivação a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ao longo da caminhada, não houve registros de incidentes. No entanto, no domingo, pouco antes da chegada do deputado, um raio caiu próximo a um grupo de manifestantes que aguardava o ato, em meio a forte chuva. Segundo o Corpo de Bombeiros do Distrito Federal, 89 pessoas receberam atendimento, e 42 foram encaminhadas a hospitais da região.

Ao analisar o impacto político da mobilização, o professor de direito digital do Ibmec Brasília, Rodolfo Tamanaha, avaliou que o peso do ato esteve mais no simbolismo do que no número de pessoas mobilizadas. Segundo ele, a caminhada ganhou relevância pelas imagens e pela repercussão na mídia. “Não tanto pela quantidade de pessoas, mas pelo simbolismo e pelas imagens geradas, que acabam repercutindo. Há uma manifestação que se justifica pela situação de Bolsonaro e pela ideia de falta de liberdade no Brasil, mas, por trás disso, aparece o surgimento de um novo líder da direita”, afirmou.

Tamanaha destacou ainda que Nikolas Ferreira teria um projeto político próprio. “Ele aparenta ter um projeto de poder que corre por fora do bolsonarismo e reforça valores ultraconservadores e religiosos. O que de fato aparece nessa manifestação é o surgimento de uma nova liderança da direita, em um momento de fragilização de Bolsonaro e de divisões internas nesse campo político”, disse.

Sobre os efeitos da mobilização para o campo da direita, o professor avaliou que o deputado concentrou todas as atenções. “O grande destaque da manifestação foi o próprio Nikolas. Ele foi o epicentro do movimento, que ganhou espaço na mídia nesta segunda quinzena de janeiro. Isso pode funcionar como um catalisador para ações futuras de mobilização da direita, de olho nas eleições de outubro”, afirmou.

Na avaliação dos pontos positivos e negativos, Rodolfo Tamanaha apontou saldo favorável ao parlamentar. “Para o Nikolas, a manifestação tem saldo positivo. Ele se consolida como uma referência da direita, reforça a ideia de liderança e demonstra um projeto de poder próprio, com a intenção de formar um grupo político em torno dele. Diante da situação legal e de saúde de Bolsonaro, Nikolas busca se colocar como uma figura sucessora, jovem e renovada dentro da direita”, explicou.

Ao tratar dos riscos no médio e longo prazo, o professor afirmou que o movimento pode gerar reações, inclusive dentro do próprio campo político. “Quando alguém se propõe a liderar, surgem apoiadores, mas também reações de grupos que se sentem ameaçados. Ele é um político novo, mas experiente e habilidoso, e sabe que se expor envolve riscos. Para liderar, é preciso se arriscar, e a mensagem que ele passa com esse ato é clara: ele quer se destacar como líder”, concluiu.

Já o professor de políticas públicas do Ibmec Brasília, Jackson De Toni, analisou a caminhada como uma estratégia de comunicação política. Segundo ele, o gesto pode ser entendido como uma ação performática, voltada a reforçar atributos simbólicos como sacrifício e perseverança. “Trata-se de um gesto que busca confrontar simbolicamente o centro do poder e reforçar uma narrativa de representação direta do povo, em contraste com as elites institucionais”, afirmou.

De Toni avaliou que o principal efeito da caminhada foi o fortalecimento da imagem pessoal do deputado. “O que se observa é a consolidação de um capital político personalista, com ganhos concentrados na liderança individual e na conexão com uma base já mobilizada. Embora haja efeitos para a direita, como a ativação de redes militantes, os resultados parecem mais ligados à construção da imagem do próprio parlamentar”, disse.

O professor também ponderou que a estratégia pode ter limites. “A ação tende a dialogar principalmente com a própria bolha ideológica e pode gerar desgaste por repetição, além de intensificar reações adversas. Há o risco de a liderança permanecer restrita ao núcleo de apoiadores, com impacto episódico e dificuldade de expansão para outros segmentos do eleitorado”, avaliou.

Segundo os analistas, a caminhada de Nikolas Ferreira ampliou sua visibilidade nacional e reforçou sua posição dentro da direita, mas também expôs desafios e possíveis reações contrárias que podem influenciar seus próximos passos no cenário político.