PF e MP precisam investigar “faturamento” da família de Celina Leão no governo do DF. Seria um mensalinho?
13 setembro 2026 às 10h34

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Quando o legal (a governadora Celina Leão) tenta transformar o ilegítimo em legal — o legal se torna ilegítimo e ilegal. Portanto, em tese, a ação pode ser criminosa. Pode caracterizar, entre outras coisas, improbidade administrativa e peculato.
A jornalista investigativa Bela Megale publicou na quinta-feira, 3, no jornal “O Globo”, uma denúncia grave que arrola a governadora do Distrito Federal, Celina Leão (pP), seu marido, Fabrício Faleiro Ferreira, e sua filha, Bruna Victória Leão Machado de Araújo, além das empresas Real JG Facilities, 3J Facilities e Faceng Engenharia.
Fabrício Faleiro e Bruna Victória são sócios na empresa Faceng Engenharia.
A empresa Real JG Facilities, que presta serviços para o governo do Distrito Federal, repassou 1,4 milhão de reais para a Faceng Engenharia.
Entre maio de 2025 e junho de 2026, os pagamentos da Real JG Facilities eram feitos mensalmente. As notas fiscais mostram que os pagamentos eram de 100 mil reais por mês.
Estaria caracterizado uma espécie de mensalinho no Distrito Federal? O pagamento mensal, sempre de 100 mil reais, sugere isto. Mas será importante uma investigação detida tanto da Polícia Federal quanto do Ministério Público
A empresa 3J Facilities também repassou 100 mil reais para a Faceng, em julho de 2026, com Celina Leão no comando do governo do DF.
Estaria caracterizado uma espécie de mensalinho no Distrito Federal? O pagamento mensal, sempre de 100 mil reais, sugere isto.

Mas será importante uma investigação detida tanto da Polícia Federal (Celina Leão, por ser governadora, responde judicialmente no Superior Tribunal de Justiça, STJ) quanto do Ministério Público (o do Distrito Federal e Federal). Uma investigação isenta pode revelar, se existirem, outros problemas semelhantes.
A Real JG Facilities terá de explicar, inclusive à Justiça, posteriormente, as razões de ter repassado dinheiro para familiares da governadora. A Faceng, adiante, poderá ter de devolver dinheiro ao Erário? Se comprovada a irregularidade, sim. Se condenada, Celina Leão poderá ter os direitos políticos cassados e se tornará inelegível.
Ao ser confrontada com a denúncia, Celina Leão atacou os adversários político-eleitorais, como José Roberto Arruda, Leandro Grass, Paula Belmonte, Ricardo Cappelli, Kiko Caputo Neto, Rico Pinheiro Filho e Elisson Ferreira Freire, em vez de apresentar uma explicação plausível sobre o contrato que beneficiou seu marido, sua família e, indiretamente, a si mesma.

O ataque de Celina Leão tem a ver com o fato de que os candidatos protocolaram — juntos — uma representação no Ministério Público do Distrito Federal e dos Territórios, com cópia para a Procuradoria-Geral da República, com pedido de investigação sobre o “contrato” que gerou o suposto “mensalinho” de 100 mil reais por mês e, no total, 1,4 milhão de reais.
Num vídeo, em que se defende atacando, Celina Leão acusa os adversários, mas sem registrar que a denúncia de “O Globo” — que não parece ter interesse político-eleitoral no Distrito Federal — saiu antes da representação dos candidatos a governador.
A representação foi feita a partir da denúncia publicada em “O Globo”. Então, a governadora teria de criticar primeiro o jornal, o que não fez.
Mesmo sendo advogada, Celina Leão disse, com todas as letras, que o fato de o marido e a filha receberem 100 mil reais por mês de uma empresa — com ela na vice e, depois, no governo — é “legal”. O que, por certo, não é.
A governadora, assim como o marido e a filha, poderá ter de responder criminalmente pelo “faturamento” de 1,4 milhão de reais. Porque, além da aparente ilegalidade, há a questão da moralidade. Não é lícito um prestador de serviço para o governo do DF repassar dinheiro para o marido e para a filha da governadora.

Há uma suspeita de ilicitude, por isso os candidatos têm razão ao solicitar ao Ministério Público que proceda a uma investigação. A representação é, inclusive, cautelosa. Cobra-se mais uma investigação — esclarecedora — do que acusa-se a governadora.
A Real JG Facilities faturou 2,015 bilhões de reais do governo do Distrito Federal. Há um contrato com o gabinete da Vice-Governadoria (Celina Leão era vice-governadora) no valor de 2,23 milhões de reais
A Real JG Facilities e a 3J Facilities foram fundadas pelo ex-deputado distrital José Gomes. Mas o setor jurídico da primeira afirma que as duas empresas hoje pertencem a grupos diferentes. Admitiu, porém, que a 3J Facilities presta serviço para a Real JG Facilities. Há conexão entre elas, inclusive no caso de ambas terem repassado dinheiro para o marido e a filha de Celina Leão.
(José Gomes teve o mandato cassado, por ter cometido irregularidade. Mas isto não parece incomodar Celina Leão. Porém, incomoda quando se trata de criticar um adversário.)
A Real JG Facilities faturou, em 2013 e 2026, 2,015 bilhões de reais do governo do Distrito Federal. Há, inclusive, um contrato com o gabinete da Vice-Governadoria (Celina Leão era vice-governadora) no valor de 2,23 milhões de reais.
O que exatamente a Faceng Engenharia fez para receber 1,4 milhões de reais da Real JG Facilities? De acordo com as 14 notas fiscais, o serviço prestado é o seguinte: “Execução, por administração, de obras da construção civil, hidráulica ou elétrica e de outras obras semelhantes, inclusive sondagem, perfuração de poços, escavação”. Bela Megale ressalva: “Nenhuma delas indica que é a obra, o endereço, a etapa ou a medição do projeto”.

A assessoria de Fabrício Faleiro informa que os serviços prestados pela Faceng Engenharia “se referem ao acompanhamento e fiscalização de obras privadas no DF e em Goiás para a empresa Real JG Facilities”. Acrescentou que a empresa “não tem contratos de obras com o GDF” (é como se tivesse, só que de maneira indireta, via a Real JG Facilities). Apesar do questionamento de “O Globo”, a empresa não informou em que obras a Faceng atuou.
A Real JG Facilities disse que os serviços prestados pela empresa do marido e da filha de Celina Leão “não contemplam a execução de nenhuma obra, e sim acompanhamento e assessoramento na área de construção civil”.
Se não é ilegal o marido e a filha receberem dinheiro de uma empresa que presta serviço para o governo do Distrito Federal — sendo Celina Leão a vice-governadora e, depois, a governadora —, certamente perdeu-se a noção do que é, além de legal, legítimo, moral. (E.F.B.)
