Fogo na Chapada dos Veadeiros é controlado em parte, mas ainda preocupa
14 outubro 2025 às 12h30

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Os incêndios que atingiram a Chapada dos Veadeiros, em Goiás, nas últimas semanas, começaram a dar sinais de controle. Segundo informações atualizadas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), dois grandes focos que se espalhavam pela região foram controlados durante o fim de semana, entre os dias 11 e 12 de outubro. No entanto, ainda há fogo ativo na região de Nova Roma, exigindo a continuidade dos trabalhos de combate.
De acordo com o órgão, a soma das áreas atingidas desde o início da operação já se aproxima de 80 mil hectares queimados, embora o levantamento final ainda esteja em atualização. Um dos focos teve início nas proximidades do povoado Cormari, chegando a invadir parte do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. As chamas foram contidas após dias de intenso trabalho das equipes.
Atualmente, a operação conta com 211 pessoas envolvidas, entre brigadistas e servidores do ICMBio, Ibama/Prevfogo, Rede Contra Fogo, Brivac, Brigada de São Jorge e Brigada Cerrado de Pé. A união das equipes permitiu a contenção do avanço das chamas, que se alastraram rapidamente devido à baixa umidade e aos ventos fortes típicos deste período.
Segundo o ICMBio, até o momento não foram avistados animais silvestres feridos, mas bovinos e outros animais domésticos acabaram atingidos pelas chamas. Além das perdas ambientais, há preocupação com os impactos sobre o solo, a vegetação e as comunidades próximas.
O ambientalista Cayo Alcântara, diretor executivo da ONG A Vida no Cerrado (AVINC), explica que o fogo no Cerrado pode ter duas origens muito diferentes — uma natural e outra provocada pelo ser humano.
“Existem dois tipos de fogo no Cerrado. O natural, que ocorre geralmente no período das chuvas, causado por raios, e que costuma ter menor intensidade. Ele faz parte da ecologia do bioma. Já os fogos que acontecem na seca, como o que estamos vendo na Chapada dos Veadeiros, são em grande parte provocados pelo homem, de forma criminosa ou acidental. Esses sim são muito mais destrutivos”, afirma o especialista.
Cayo explica que os incêndios florestais durante a seca são extremamente prejudiciais porque acontecem em um momento de baixa umidade e com muita matéria orgânica seca, o que aumenta a intensidade e o poder de destruição das chamas.
“Esses incêndios acabam destruindo habitats e provocando a morte direta de animais como pequenos mamíferos, aves, répteis, insetos e anfíbios. Além disso, matam micro-organismos importantes do solo, deixando a terra mais pobre e compactada, o que dificulta a regeneração da vegetação depois do fogo”, destacou.
O ambientalista também chama atenção para o impacto ambiental global, lembrando que a queima da vegetação libera grandes quantidades de dióxido de carbono, um dos principais gases responsáveis pelo aquecimento do planeta.
“Quando a gente fala em crise climática, é impossível não relacionar com esses incêndios. O Cerrado tem um papel essencial no equilíbrio do clima, e cada hectare queimado representa uma contribuição negativa para o aquecimento global”, pontua.
Além dos danos ambientais, há prejuízos diretos na economia e na saúde pública. Segundo Cayo, o custo de combate e recuperação das áreas afetadas é alto e envolve investimentos de governos municipais, estaduais e federal.
“Milhões de reais são gastos todos os anos com brigadas, equipamentos e programas de restauração. Sem falar no impacto sobre o turismo ecológico, que é uma das principais fontes de renda dos municípios ao redor do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Quando o parque precisa fechar por segurança, toda a economia local sofre”, explicou.
Outro ponto sensível é a situação das comunidades tradicionais e rurais, como a comunidade Kalunga, que vivem próximas às áreas afetadas. Segundo o ambientalista, as queimadas podem destruir lavouras, pastagens e até provocar danos em propriedades e infraestrutura.
“O fogo atinge diretamente a vida das pessoas que dependem da terra. Além das perdas materiais, há o aumento de doenças respiratórias provocadas pela fumaça, o que sobrecarrega o sistema de saúde, especialmente o SUS”, disse.
Sobre a recuperação das áreas atingidas, Cayo explica que o Cerrado é um bioma naturalmente resiliente, mas há limites. A regeneração depende da intensidade do fogo e das condições locais.
“O Cerrado tem espécies que rebrotam depois do fogo, mas, quando as queimadas são muito fortes, é necessário um trabalho ativo de restauração, com plantio de espécies nativas e controle de plantas invasoras, como os capins africanos. Essas espécies exóticas competem com as nativas e podem impedir a regeneração”, alertou.
O processo de restauração pode levar de dois a quatro anos para que uma área volte a se regenerar de forma satisfatória. Mas, em casos mais graves, o tempo pode ser muito maior.
“Em áreas que sofrem queimadas frequentes e intensas, o processo pode levar décadas. E o risco maior é a perda de espécies endêmicas, aquelas que só existem em determinadas regiões do Cerrado. Por isso, o manejo integrado do fogo é uma estratégia fundamental”, explicou.
O Manejo Integrado do Fogo (MIF) é uma das principais políticas públicas aplicadas em parques nacionais do Cerrado, incluindo a Chapada dos Veadeiros. A técnica consiste em realizar queimadas controladas em períodos de maior umidade, simulando o fogo natural e reduzindo o risco de grandes incêndios durante a seca.
“Esse manejo ajuda a evitar que o fogo se espalhe descontroladamente, protege a vegetação e mantém o equilíbrio do bioma. Mas é essencial investir na formação e valorização dos brigadistas, que são os verdadeiros heróis dessa luta, além de promover campanhas de conscientização para evitar queimadas criminosas”, completou Cayo Alcântara.
