Durante a sessão ordinária da Câmara Municipal de Valparaíso, o vereador Denis Bento (Podemos) adotou um tom considerado intimidatório ao criticar de forma contundente o uso da tribuna popular por cidadãos que apresentam questionamentos ou denúncias sobre a gestão pública. O parlamentar afirmou estar “cansado” de ouvir “lorotas” e sugeriu que muitos oradores se colocam como “salvadores da pátria”, mesmo sem, segundo ele, conhecimento técnico ou experiência política.

No discurso, Denis Bento acusou participantes de usarem a tribuna para autopromoção e afirmou que críticas ao Legislativo e ao Executivo seriam feitas sem base concreta. Ele comparou a atuação dos oradores a julgamentos sem fundamento: “Como posso dizer que o iPhone não presta se eu nunca tive um? Como posso dizer que alguém não é capaz de ser vereador se nunca exerceu o cargo?”, disse.

O vereador também criticou manifestações sobre o Plano Diretor, alegando que há quem ataque o projeto municipal sem sequer ter lido seu conteúdo. Ao final, reforçou o posicionamento: “Temos que parar de dar palco, plateia e palanque para narrativa”.

A fala, no entanto, foi interpretada como uma tentativa de desestimular a participação social e reduzir o espaço de críticas no Legislativo, já que Denis direcionou seus ataques justamente ao instrumento que possibilita a voz da população na Câmara.

Entenda o caso

A fala do vereador ocorreu dias após a participação de Paloma Ludmyla, pesquisadora da UnB e mestranda em drenagem sustentável, que utilizou a tribuna popular para defender maior participação social no planejamento urbano e denunciar problemas estruturais no município.

Especialista em reabilitação urbana, Paloma cobrou transparência, debate público e aprimoramento técnico no processo de revisão do Plano Diretor, que classificou como “defasado e tecnicamente frágil”.

Ela destacou que vive em Valparaíso desde 1992, acompanhando o crescimento da cidade “desde a emancipação”, e alertou para um cenário de colapso em infraestrutura e meio ambiente, com obras irregulares, falhas de drenagem e saneamento e ausência de planejamento urbano adequado.

“Estamos montando relatórios técnicos que mostram irregularidades em obras e descumprimento das portarias do programa Minha Casa, Minha Vida”, afirmou. “Essa Casa é responsável pela fiscalização da lei de uso e ocupação do solo. O que está vindo para cá é um Plano Diretor mal elaborado, uma bomba para a cidade”, disse na tribuna.

Regras da tribuna popular

O Jornal Opção Entorno procurou o presidente da Câmara, Walisson Lacerda (MDB), que explicou as normas para participação.

Pelo regimento interno, qualquer cidadão residente e com domicílio eleitoral em Valparaíso há pelo menos um ano pode solicitar a tribuna, com limite de uma fala a cada três meses. O tempo para manifestação é de até 15 minutos, sem direito a apartes.

A reportagem do Jornal Opção Entorno procurou o vereador Denis Bento, porém, não atendeu nossos contatos, até o fechamento desta reportagem. O espaço segue aberto.

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