A sucessão de casos envolvendo o governo do Distrito Federal tem intensificado a pressão política sobre o governador Ibaneis Rocha (MDB) e a vice-governadora Celina Leão (PP). Além do desgaste apontado por especialistas, novas movimentações, como pedidos de investigação e impeachment, ampliam as incertezas sobre o futuro político da atual gestão.

Em entrevista ao Jornal Opção Entorno, o professor de políticas públicas do Ibmec Brasília, Jackson De Toni, avaliou o impacto das recentes crises. Ao analisar o momento político e os efeitos imediatos das denúncias, o especialista afirmou que o governo enfrenta forte desgaste e atua de forma defensiva. “O impacto político imediato é de severo desgaste e de posicionamento defensivo. Ibaneis Rocha encontra-se no epicentro da crise do Banco Master, não apenas por ter defendido publicamente a compra da instituição pelo Banco de Brasília (BRB), mas também por revelações de que seu escritório de advocacia negociou R$ 52,9 milhões em honorários com fundos ligados ao ecossistema do Master, com o próprio governador assinando como avalista em 2019”.

Ao comentar a situação da vice-governadora dentro desse contexto, o professor destacou que os efeitos da crise atingem diretamente a construção política da aliada. “Celina Leão, na condição de vice-governadora e herdeira política da gestão, absorve automaticamente o ônus e a ‘herança’ dessa crise. O escândalo deixou de ser apenas financeiro e tornou-se a pauta central do debate político local”.

Sobre a repercussão junto à população e os reflexos na imagem do governo, o especialista apontou perda de confiança e aumento da pressão social. “A credibilidade perante a população sofreu um abalo expressivo, agravado pela tentativa de aprovar uma lei para entregar áreas públicas, incluindo a Serrinha do Paranoá, com o objetivo de cobrir um rombo no BRB estimado em até R$ 8 bilhões”.

Mesmo com o cenário adverso, ele avalia que a base política ainda sustenta o governo no momento. “A governabilidade tem se mostrado, até o momento, artificialmente resiliente. Ibaneis e Celina conseguiram aprovar o projeto dos imóveis na Câmara Legislativa do DF, antes de ser barrado pela Justiça, e mantêm uma base aliada coesa”.

Ao projetar os efeitos da crise no campo eleitoral, o professor indicou aumento da vulnerabilidade da chapa. “Os desdobramentos da Operação Compliance Zero não aniquilam imediatamente a força da chapa, mas a enfraquecem de maneira considerável. Ibaneis e Celina ainda detêm o controle da máquina pública e apoio político, mas iniciam a disputa sangrando politicamente”.

Ao abordar a possibilidade de retorno do ex-governador José Roberto Arruda (PSD) ao cenário político, o especialista ressaltou os entraves principalmente na área política. “Politicamente, seu histórico continua sendo seu maior fardo. A reconstrução de sua imagem para disputas majoritárias no DF permanece um desafio colossal, praticamente impossível neste contexto”.

CPI e pedido de impeachment aumentam pressão

Paralelamente às análises políticas, novos fatos intensificaram a crise. O Partido Liberal (PL) anunciou que vai pedir a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar operações envolvendo o BRB e o Banco Master. Partidos da oposição também informaram que irão protocolar um pedido de impeachment contra o governador.

Ao explicar a decisão do partido, a deputada federal Bia Kicis afirmou que a medida foi tomada após avaliação interna e diante dos questionamentos levantados. “A decisão de apresentar o pedido de CPI foi tomada por unanimidade durante reunião do partido”, afirmou, acrescentando que a investigação deve ocorrer de forma “isenta e firme”.

Durante as discussões, parlamentares também demonstraram preocupação com possíveis impactos financeiros. O deputado distrital Tiago Manzoni (PL) destacou a incerteza sobre os prejuízos. “Ainda não é possível saber qual seria o tamanho do possível prejuízo envolvendo o BRB”, disse.

Já o deputado João Cardoso detalhou os questionamentos levantados ao longo do processo. “As discussões sobre a compra do banco começaram em março de 2025 e, posteriormente, surgiram informações que levantaram dúvidas sobre os dados apresentados inicialmente”, afirmou.

Contrato de R$ 38 milhões entra no centro do debate

Outro ponto que passou a ser questionado é um contrato firmado em 2024 entre o escritório Ibaneis Advocacia e Consultoria e um fundo administrado pela Reag Investimentos. O acordo envolve a cessão de R$ 38,12 milhões em honorários advocatícios.

O caso também foi citado por opositores. Ao comentar o tema, o ex-interventor da segurança pública do DF, Ricardo Cappelli, fez críticas à relação mencionada. “Segundo a reportagem, o escritório de Ibaneis Rocha tem um contrato de 38 milhões com o Fundo Reag”, afirmou.

Em outro momento, ao relacionar o caso com operações financeiras envolvendo bancos, ele acrescentou: “O Fundo Reag é sócio do Banco Master. O BRB tentou comprar o Master e passou bilhões de reais para o banco”.

Cappelli também anunciou uma nova iniciativa política. “Nós vamos entrar hoje com um novo pedido de impeachment na Câmara Distrital”, declarou.

Mais ingredientes: operação na educação

Outro episódio recente envolve investigação sobre possíveis desvios na área da educação. Ao comentar a operação do Ministério Público, o governador Ibaneis Rocha afirmou não ter relação com o caso.

Ao explicar sua posição, ele destacou que não possui informações detalhadas sobre a apuração. “Pelo que eu sei, essa operação corre em sigilo. Eu não tenho informações do que aconteceu e também se eles que estão envolvidos quiserem apresentar para mim alguma coisa, mas não tem interesse nenhum”.

Na mesma declaração, o governador reforçou que não é citado na investigação. “Não cita meu nome, eu não tenho nada a ver com isso. Cada um que tem seus problemas que responda perante a Justiça”, disse.

A Secretaria de Educação informou que o contrato investigado foi firmado em gestão anterior e que a medida adotada à época buscava garantir a continuidade das aulas para os estudantes.

Enquanto isso, as investigações seguem em andamento e o cenário político no Distrito Federal permanece sob forte tensão, com desdobramentos que podem influenciar tanto a governabilidade quanto as próximas eleições.