Alunas de Luziânia transformam jatobá do Cerrado em bioplástico e larvicida e chegam à semifinal de competição científica
06 outubro 2026 às 13h55

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Um fruto encontrado no Cerrado virou ponto de partida para três estudantes de uma escola pública de Luziânia, no Entorno do Distrito Federal, entrarem em uma disputa nacional de ciência e inovação. A partir do jatobá-do-cerrado, as alunas desenvolvem dois produtos: um bioplástico e um extrato com potencial larvicida contra o Aedes aegypti.
A pesquisa colocou as estudantes do CEPI Colégio Estadual Osvaldo da Costa Meireles entre os 30 projetos semifinalistas da 13ª edição do Solve for Tomorrow Brasil, competição voltada a alunos do ensino médio da rede pública.
Sob orientação da professora Gabrielle Rosa Silva, as três estudantes do 3º ano decidiram partir de uma matéria-prima disponível na própria região. A proposta é aproveitar diferentes partes do jatobá para aplicações distintas e, ao mesmo tempo, explorar cientificamente a biodiversidade do Cerrado.
O trabalho, chamado “Desenvolvimento e caracterização de bioplástico e larvicida”, nasceu durante uma aula de Biotecnologia e começou a ser desenvolvido em 2024.
Do mesmo fruto, duas experiências
A lógica do projeto é aproveitar características diferentes do jatobá. A polpa, rica em amido, é utilizada pelas estudantes na fabricação do bioplástico. O material está sendo testado para possíveis aplicações em objetos como brincos e acessórios. Uma das possibilidades estudadas para o futuro é avançar até a produção de um material que possa ser empregado como tecido.
A casca, por sua vez, é usada na obtenção de um extrato fitoquímico estudado por sua ação larvicida. A proposta é investigar sua utilização em locais com água onde se desenvolvem larvas do Aedes aegypti, mosquito transmissor de doenças como dengue e zika.
A pesquisa ainda está em desenvolvimento. No caso do bioplástico, as estudantes analisam características como umidade, degradação, textura, maleabilidade e rigidez para entender quais aplicações são tecnicamente possíveis. “Pensamos no que temos na região para enfatizar nossas riquezas por meio de produtos. O jatobá é um fruto que tem muito amido, então começamos a trabalhar com ele para produzir o bioplástico. A casca também tem componentes que podem ser utilizados para a questão do controle das larvas”, explica Gabrielle.
Segundo a professora, a intenção foi justamente obter dois resultados diferentes a partir de uma mesma matéria-prima.
Pesquisa acompanha época do jatobá
O trabalho das estudantes também precisa acompanhar o ciclo natural do fruto. Como o jatobá-do-cerrado é sazonal, a equipe realiza a coleta durante o período de disponibilidade e prepara materiais que possam ser armazenados para a continuidade dos experimentos ao longo do ano.
Nesta etapa, o grupo decidiu concentrar esforços principalmente no aprimoramento do bioplástico.
A professora afirma que a mentoria recebida durante a competição ajudou a equipe a delimitar os próximos passos da pesquisa, em vez de tentar desenvolver todas as possibilidades simultaneamente. “Agora podemos focar no bioplástico, melhorar o que já temos e pensar em aplicações que realmente possam ser desenvolvidas dentro da nossa realidade”, afirma.
Projeto muda relação das alunas com a ciência
Além do resultado experimental, a participação no projeto passou a influenciar a própria formação das estudantes.
De acordo com Gabrielle, o trabalho científico tem estimulado habilidades de oratória, pensamento crítico, organização e desenvolvimento de projetos. A professora relata que uma das integrantes chegou ao ensino médio com dificuldade para falar em público e passou a demonstrar maior desenvoltura ao longo da pesquisa. “Elas passaram a querer fazer ciência e isso é importante para formar pessoas críticas, capazes de observar e transformar a realidade. O futuro delas pode ser diferente”, diz a orientadora.
Para a professora, chegar à semifinal também deu às estudantes uma experiência de pesquisa que ultrapassa a possibilidade de vencer a competição. “A expectativa não é apenas ganhar, mas aproveitar essa participação, que está sendo muito enriquecedora”, afirma.
Entre 30 projetos do país
O projeto de Luziânia está entre os 30 semifinalistas selecionados pelo Solve for Tomorrow Brasil. A iniciativa é voltada a estudantes e professores de escolas públicas e trabalha com a abordagem STEM integração entre Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática e aprendizagem baseada em projetos.
A edição de 2026 registrou crescimento de 7,7% no número de projetos inscritos em relação a 2025. Segundo os dados divulgados pelo programa, houve ainda aumento de 11% na participação de estudantes mulheres e de 3% na presença de escolas quilombolas e instituições situadas em áreas rurais.
Na América Latina, o programa informa já ter alcançado mais de 442 mil alunos e professores de escolas públicas em 21 países. No Brasil, a iniciativa tem coordenação geral do Cenpec.
Para Beatriz Cortese, diretora executiva do Cenpec, projetos como o desenvolvido em Luziânia também ajudam estudantes de escolas públicas a se reconhecerem como produtores de conhecimento.
“Quando meninas de uma escola pública de Luziânia investigam o potencial de um fruto do Cerrado e transformam essa investigação em um projeto científico, elas também estão ampliando seus próprios horizontes”, afirma.
Já Helvio Kanamaru, diretor de ESG e Cidadania Corporativa da Samsung para a América Latina, destaca a utilização de recursos naturais encontrados no próprio território como ponto de partida para soluções de inovação.
Próxima etapa será definida neste mês
As estudantes de Luziânia saberão em 16 de outubro se estarão entre os dez projetos finalistas da edição de 2026. Depois dessa etapa, o calendário prevê a abertura da votação do júri popular em 23 de novembro. Os vencedores de cada categoria serão anunciados em 8 de dezembro.
Enquanto a seleção avança, as três alunas continuam no laboratório aprimorando o material criado a partir do jatobá. Independentemente do resultado da competição, o projeto já colocou um fruto característico do Cerrado no centro de uma experiência científica desenvolvida dentro de uma escola pública de Luziânia.
