Anos por uma cirurgia e meses por consulta: moradores relatam drama na saúde do DF
15 setembro 2026 às 17h30

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Filas prolongadas, pacientes aguardando por cirurgias durante anos, falta de médicos, unidades sobrecarregadas e dificuldades para conseguir consultas e exames fazem parte dos relatos de moradores do Distrito Federal que dependem da saúde pública. A reportagem do Jornal Opção Brasília/Entorno percorreu as principais unidades de saúde do DF e ouviu pacientes e acompanhantes que descrevem uma rotina marcada pela espera e pela busca, muitas vezes repetida, por atendimento.
A reportagem percorreu o Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF), administrado pelo Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (IgesDF), além do Hospital Regional do Gama (HRG) e do Hospital Regional de Taguatinga (HRT). Nas unidades, foram encontrados pacientes à espera de atendimento e familiares que relataram dificuldades que começam na atenção básica e chegam aos procedimentos de maior complexidade.
Os depoimentos mostram diferentes faces do mesmo problema. Há pacientes que dizem esperar meses ou anos por procedimentos, moradores que afirmam não encontrar médicos nas unidades básicas e pessoas que precisam recorrer à Justiça para tentar acelerar tratamentos.

A empresária Danielle Xavier acompanha de perto a rotina do Hospital de Base. A mãe dela está internada e, segundo Danielle, as idas e vindas à unidade já duram cerca de cinco meses. Ela relata problemas que vão desde a falta de insumos à sobrecarga das equipes. Segundo a empresária, em determinados momentos faltam até fraldas adequadas para pacientes idosos, levando profissionais a improvisar com produtos infantis. “Os enfermeiros emendam fraldas infantis para que adultos e idosos possam utilizar”, detalha Danielle que também afirma que técnicos de enfermagem chegam a ficar responsáveis por dez a 12 pacientes.
Segundo Danielle, a mãe esperou 20 dias no pronto-socorro na primeira internação, 15 dias em outra ocasião e dez dias na passagem mais recente até conseguir transferência para uma enfermaria. ““A situação no pronto-socorro é deprimente”, acrescenta. Ela também relata falta de espaço para acompanhantes, cadeiras quebradas e estrutura inadequada. “Eu tive que velar um morto para conseguir a cadeira que iria sobrar e poder sentar. Já que no pronto-socorro o acompanhante fica em pé”, conta.
A acompanhante afirma ainda ter presenciado uma criança internada em uma área destinada a adultos por falta de vaga em leito infantil. De acordo com o Danielle Xavier, a situação ocorreu no setor de ortopedia.
Pacientes relatam demora e desgaste
A aposentada Joana dos Santos faz acompanhamento no Hospital de Base há mais de 30 anos. Ela conta que mesmo depois do longo deslocamento para chegar ao hospital, costuma passar o dia esperando.
Joana também relata experiências negativas durante consultas e diz que o desgaste provocado pelo atendimento chega a fazê-la pensar em abandonar o tratamento. “Além de todo o sofrimento para chegar aqui ainda sou atendida mal. Penso até em desistir do tratamento. Não é fácil”, desabafa e emenda: “Eu tenho problema de pulmão, e por isso tenho muita falta de ar e crise de tosse. Por conta disso, a médica questiona muito por eu ficar tossindo”, conta triste.
Cirurgia aguardada desde 2021
A situação de Joselita Gonçalves de Almeida, moradora de Sobradinho, mostra como a espera pode se estender por anos. Paciente da oncologia desde 2019, ela também faz acompanhamento em outras especialidades e afirma que precisou procurar a Defensoria Pública para conseguir avançar na fila de uma cirurgia de vesícula.
Segundo Joselita, a indicação para o procedimento existia desde 2021. Em 2024, ela chegou a ser atendida, mas afirma que, devido a problemas relacionados à validade dos exames, voltou para a fila. Com o agravamento do quadro, decidiu recorrer à Defensoria. “Só consegue as coisas com celeridade se procurar a Justiça”, argumentou. Agora, segundo ela, há previsão para a realização da cirurgia e início dos exames pré-operatórios. Joselita afirma, porém, que poderá precisar novamente da atuação da Defensoria para tentar acelerar o procedimento.

Para ela, a insuficiência de profissionais não está restrita aos hospitais. Joselita afirma que a unidade básica de saúde de referência da região onde mora está há cerca de dois anos sem médico e considera insuficiente o número de profissionais diante do crescimento da população. “Tem que ter UBSs com mais médicos e UPAs com mais médicos para emergência e melhorar os hospitais”, afirma.
Espera atinge pacientes com câncer
A reportagem também ouviu pacientes em tratamento contra o câncer. Maria do Socorro, de 74 anos, moradora do Recanto das Emas, chamou atenção para a demora enfrentada por idosos durante procedimentos de acompanhamento.
Ela contou ter encontrado uma paciente de 78 anos, com câncer no cérebro, aguardando atendimento e relatando tontura. Para Maria do Socorro, pacientes idosos e oncológicos deveriam ter um fluxo capaz de reduzir períodos prolongados de espera, principalmente com preparos de exames, incluindo jejum. “Tinha que saber o procedimento de cada pessoa, para atender mais rápido.”
Maria do Socorro afirmou que chegou à unidade por volta das 6h30 e ainda aguardava atendimento perto das 9h.
Família aguarda tratamento
No Sol Nascente, outros relatos reforçam as dificuldades para acessar tratamentos especializados. Maria Gesca da Silva acompanha o caso da sogra, uma idosa que, segundo ela, já passou por uma cirurgia na cabeça e aguarda contato da rede pública para iniciar quimioterapia e radioterapia. “Até agora eles não ligaram”, relata.
Ela também afirma encontrar dificuldades nas unidades de pronto atendimento da região, principalmente pela falta de médicos. “Vai para a UPA, não tem médico, e volta para casa doente”, resume.
Maria Rufina Pereira, também moradora do Sol Nascente, afirma estar tentando conseguir uma cirurgia para retirada de pedra na vesícula. Ela reclama da dificuldade para avançar no tratamento e dos custos de medicamentos para quem não consegue acesso pela rede pública.
Beatriz Almeida também relata uma longa espera. Moradora do Sol Nascente, ela afirma possuir desde 2022 um encaminhamento para investigação e tratamento relacionado à infertilidade feminina, mas diz que ainda não conseguiu atendimento especializado.
O marido dela, segundo Beatriz, também enfrenta problemas de saúde. Ela relata que ele permaneceu sete dias internado em uma UPA de Ceilândia com infecção e pedras na vesícula inflamadas, mas recebeu alta sem passar pela cirurgia.
Beatriz afirma ainda que tentou atendimento no Hospital Materno Infantil de Brasília (Hmib), no Hospital Regional de Ceilândia e em unidades básicas, sem conseguir resolver suas demandas. “Já tem tempo que a gente tenta consulta no posto, vai no hospital e nunca tem médico”, afirma.
Superlotação e pressão sobre profissionais
Durante as visitas, a reportagem também encontrou sobrecarga nas unidades. No Hospital de Base, pacientes aguardavam desde a triagem, até as áreas de medicação e recepção do pronto-socorro aguardando uma possível cirurgia ou internação para o tratamento.
Outro ponto observado pela reportagem foi a presença, na área de emergência, de pacientes em macas próximos a pessoas que haviam morrido e permaneciam cobertas por lençóis. A cena ampliava a sensação de saturação do setor e expunha pacientes e familiares a uma situação particularmente delicada.
Os relatos colhidos também apontam para a sobrecarga dos próprios servidores. Danielle, que acompanha a internação da mãe, afirma reconhecer o esforço dos profissionais apesar das críticas à estrutura.
Segundo ela, a maioria dos técnicos tenta fazer além do que seria esperado, mesmo diante da falta de ferramentas e da quantidade de pacientes sob responsabilidade das equipes.
Os relatos ouvidos pela reportagem revelam que a dificuldade não está concentrada em apenas uma etapa do atendimento. Ela aparece na tentativa de marcar uma consulta na UBS, na busca por médicos nas UPAs, na espera por especialistas e na fila para cirurgias e tratamentos de maior complexidade.
Também há diferentes avaliações sobre a qualidade do atendimento. Alguns pacientes elogiam profissionais e serviços recebidos, mas apontam que a quantidade de servidores e a estrutura disponível não acompanham a demanda.
Joselita resume essa percepção ao afirmar que o Hospital de Base presta atendimento em diversas especialidades, inclusive para pacientes de fora do Distrito Federal, mas considera insuficiente a quantidade de médicos, enfermeiros, técnicos e servidores administrativos diante do volume de pessoas atendidas.
Os depoimentos mostram, sobretudo, que a crise percebida pela população vai além da porta dos hospitais. Para quem depende exclusivamente do SUS, conseguir entrar no sistema não significa necessariamente chegar rapidamente ao tratamento: entre o primeiro atendimento e a solução do problema podem existir meses — e, em alguns casos relatados à reportagem, anos — de espera.
O que diz o IgesDF
Procurado pela reportagem, o Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (IgesDF), responsável pelo Hospital de Base, informou que a unidade enfrenta alta demanda assistencial.
Em nota, o instituto afirmou que, diante do cenário, “a unidade adota medidas para otimizar a disponibilidade de leitos e agilizar altas e transferências, quando clinicamente indicadas”.
A reportagem também procurou a Secretaria de Saúde do Distrito Federal para esclarecimentos sobre as condições da rede pública e os problemas relatados pelos pacientes, porém, até o fechamento desta matéria, não houve manifestação da pasta.
