Cerca de dois meses após o secretário Thiago Mello Peixoto da Silveira assumir o comando da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal (SEEDF), mudanças na organização pedagógica da rede pública passaram a ser alvo de críticas do Sindicato dos Professores do Distrito Federal (Sinpro-DF).

Entre as medidas questionadas estão a antecipação do encerramento do terceiro bimestre do ensino médio, a distribuição de novos materiais pedagógicos, a definição de atividades para as escolas e o acompanhamento, por equipes da Secretaria, das ações realizadas pelas unidades.

Em um memorando circular encaminhado às instituições públicas de ensino, a Subsecretaria de Educação Básica determinou que as estratégias pedagógicas e avaliativas referentes ao terceiro bimestre de 2026 fossem executadas até 25 de setembro. A orientação alterou, na prática, o cronograma de atividades de parte das escolas e abriu espaço para um período concentrado de reforço e recuperação.

O Sinpro-DF questiona se a antecipação das avaliações e a concentração de atividades de recuperação são suficientes para produzir melhora efetiva na aprendizagem.

A diretora do Sinpro-DF Márcia Gilda afirmou, em entrevista ao Jornal Opção Brasília/ Entorno, que o sindicato considera insuficiente concentrar em poucas semanas um processo de recuperação que, segundo ela, deveria ocorrer durante todo o ano letivo. “Você não consegue recuperar um bimestre inteiro em duas semanas. A recuperação é uma questão processual, ela se dá ao longo do ano”, afirmou.

Na avaliação da diretora, concentrar avaliações e atividades de reforço no fim do período pode produzir um resultado pontual nos indicadores, mas não necessariamente representa uma mudança no processo de aprendizagem. “Não são duas semanas de reforço escolar que vão resultar na próxima avaliação de larga escala. É necessário um conjunto. A educação se trata com propostas de curto, médio e longo prazo, com investimento”, disse Márcia.

O sindicato também afirma que a antecipação do cronograma prejudica projetos e atividades planejadas anteriormente pelas escolas. Segundo a entidade, professores relataram que ações previstas para o período tiveram de ser revistas diante das novas orientações.

Outra reclamação do Sinpro envolve o envio de materiais pedagógicos e a definição de atividades pela Secretaria sem, segundo o sindicato, participação efetiva das equipes escolares na elaboração do planejamento.

Em nota publicada na sexta-feira (18), a entidade afirmou que o envio de materiais sem participação das escolas e a imposição de cronogramas representam uma interferência no planejamento das unidades.

O sindicato também questionou materiais relacionados ao programa Alfaletrando, voltado à alfabetização e ao letramento. Segundo a entidade, parte dos conteúdos teria sido encaminhada às escolas sem discussão prévia com os profissionais responsáveis pelo planejamento pedagógico.

Acompanhamento dentro das escolas

A atuação de equipes da Secretaria também foi questionada pelo sindicato. Durante uma reunião com gestores realizada na sexta-feira (18), no auditório da SEEDF, representantes das unidades receberam orientações sobre as ações que deveriam ser desenvolvidas nas escolas.

De acordo com Samuel Fernandes, diretor do Sinpro-DF, gestores presentes demonstraram preocupação com a interferência no planejamento das unidades. O diretor também relatou a presença de equipes da Secretaria acompanhando atividades dentro das salas de aula.

Para Márcia Gilda, a construção das políticas educacionais deveria envolver professores, gestores, conselhos escolares e famílias. “Nós acreditamos em propostas que são construídas de forma coletiva, ouvindo quem está de fato no chão da escola”, afirmou.

A diretora também criticou o que considera uma sequência de alterações nas políticas educacionais do Distrito Federal nos últimos anos. Segundo ela, a rede passou por diferentes modelos de organização do ensino médio, como regime anual, semestralidade e a implementação do Novo Ensino Médio.

Para Márcia, a sucessão de mudanças dificultou a continuidade das políticas públicas. “É uma série de questões que impacta no resultado do Ideb. A gente teve uma descontinuidade de política pública”, lembrou sobre o último lugar no Índice da Educação Básica em que o DF ocupa. 

Ela também citou fatores estruturais que, na avaliação do sindicato, interferem no desempenho dos estudantes, como salas superlotadas, falta de climatização adequada, dificuldades relacionadas aos materiais pedagógicos e deslocamento de alunos que dependem do transporte escolar.

Segundo a diretora, esses fatores não podem ser dissociados dos resultados das avaliações de larga escala.

“É um conjunto de situações que desfavoreceram o processo de avaliação aqui no DF para o Ideb”, afirmou.

Sinpro cobra participação dos profissionais

Márcia Gilda também afirmou que o sindicato defende que mudanças na rede sejam discutidas com quem atua diretamente nas escolas.

Ela citou, como exemplo, o calendário escolar, que, segundo a entidade, foi aprovado no início do ano e referendado pelo Conselho de Educação do Distrito Federal.

“Quando você vê a instituição desrespeitando todo um calendário que foi aprovado no início do ano, que foi referendado pelo Conselho de Educação, chega e muda tudo”, afirmou.

Para a diretora, existem alternativas pedagógicas para atender estudantes com dificuldades sem concentrar o processo em um período curto. Entre elas, citou o reagrupamento de alunos e a realização de atividades específicas de reforço ao longo do ano. “Quem está em sala de aula tem muitas ideias, mas infelizmente não somos ouvidos”, disse.

O Sinpro-DF afirma que é favorável à adoção de medidas para melhorar a aprendizagem, mas defende que elas sejam acompanhadas de investimentos, melhoria das condições de trabalho e participação dos profissionais da educação.

A entidade também questiona iniciativas que, segundo o sindicato, priorizariam resultados de curto prazo em detrimento de políticas estruturantes.

O que diz a Secretaria

A orientação oficial consta no Memorando Circular nº 362/2026 – SEE/SUBEB, encaminhado às instituições educacionais públicas. O documento determina que as estratégias pedagógicas e avaliativas referentes ao terceiro bimestre de 2026 sejam executadas até 25 de setembro.

A Secretaria de Educação não informou, até a publicação desta reportagem, detalhes adicionais sobre os critérios utilizados para a mudança no cronograma, nem respondeu aos questionamentos apresentados pelo Sinpro-DF sobre os materiais pedagógicos, o acompanhamento das escolas e o período destinado às atividades de reforço e recuperação.

O espaço permanece aberto para manifestação da SEEDF.