Às vésperas de completar um mês à frente do Governo do Distrito Federal, a governadora Celina Leão (PP) enfrenta uma série de desafios que pressionam sua gestão em diferentes frentes. O relógio passa e a população do Distrito Federal não vê as mudanças prometidas em sua posse na CLDF. O diálogo com categorias da polícia penal e professores são algumas das pautas em que Celina precisa ter jogo de cintura para que a grise no governo não se agrave ainda mais, impactando serviços essenciais. Mesmo assim, têm resultado em paralisações e mobilizações por reajustes salariais, ampliando o cenário de instabilidade administrativa.

O maior escândalo político-bancário do Brasil é o principal abacaxi que a governadora precisa descascar. No primeiro dia de governo, assumiu um discurso de transparência e resolução da crise, mas passados quase 30 dias, a situação vem se agravando, com a prisão do ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa, e prestes a abrir a boca numa delação premiada e apontar mais detalhes da operação milionária que vinha afundando o Banco de Brasília. Seu antecessor, Ibanes Rocha, apenas virou as costas e entregou a bomba-relógio para a governadora administrar e tentar adivinhar “qual fio”, ou melhor, qual rumo traçar para dar um basta na corrupção dentro do banco.  

Sem detalhar a real situação da instituição bancária do Distrito Federal, gerenciada por Nelson Souza, o BRB, tem maior dificuldade de ter aprovação de empréstimos por parte do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Com isso a instituição perde prestigio no mercado, levando a mais impacto negativo para o banco.  Neste mês, a Moody’s Local Brasil rebaixou o rating do BRB (Banco de Brasília) para CCC+ (alto risco de calote) em abril de 2026, refletindo perdas com ativos do Banco Master e necessidade de aporte de capital.

No campo político e jurídico, a governadora também lida com desdobramentos da Operação Drácon, investigação que apura um suposto esquema de cobrança de propina em troca da liberação de emendas parlamentares entre 2015 e 2016. Época em que Celina Leão era presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal e responde por processos de improbidade administrativa.

Nesta semana, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) negou, por unanimidade, um recurso apresentado pela defesa da governadora em que pedia para tentar reverter decisões monocráticas dentro do próprio tribunal. A decisão foi tomada pela 3ª Turma Criminal, que manteve entendimento anterior.

Segundo o Ministério Público, o esquema investigado teria envolvido o desvio de cerca de R$ 30 milhões, com recursos originalmente destinados à educação sendo redirecionados para a saúde. A defesa da governadora tem apresentado recursos ao longo do processo, com intuito de protelar ou demorar ainda mais a sentença final e evitar um possível impacto nas eleições de 2026. O julgamento ocorre em meio à expectativa sobre o desfecho da Operação Drácon, que pode influenciar diretamente o cenário eleitoral no Distrito Federal. Celina Leão responde a ações que, em caso de condenação por órgão colegiado, podem levar à inelegibilidade com base na Lei da Ficha Limpa e mudar todo o contexto eleitoral.

Corte de gastos

Medidas de contenção de gastos não são inéditas na atual gestão. Em janeiro deste ano, o então governador Ibaneis Rocha já havia publicado um decreto semelhante, criando um limite mensal de despesas para todos os órgãos do GDF e condicionando novos gastos à autorização da Secretaria de Economia, mesmo quando já previstos no orçamento. À época, o governo alegou enfrentar uma crise fiscal com potencial de impacto em áreas sensíveis, como a saúde pública. Três meses depois, a iniciativa de Celina Leão segue a mesma linha de ajuste, reforçando o discurso de responsabilidade orçamentária diante do cenário de restrição nas contas do Distrito Federal.

Saúde

Também prometido no discurso de posse da governadora de cancelar a festa de aniversário de 66 anos de Brasília e destinar o recurso R$ 25 milhões para a saúde do Distrito Federal, na prática a população do DF não enxerga esses investimentos. A saúde que é um verdadeiro caos, com hospitais locados, emergências onde os pacientes ficam de 6 a 10 horas de espera por um atendimento e quando é atendido, pessoas ficam internadas numa sala lotada, e muitas das vezes deitada no chão por falta de cama e leito. Recentemente vimos estas cenas no Hospital de Base, Hospital Regional do Gama e Hospital Materno Infantil, são alguns dos mais sobrecarregados e em condições precárias. Pacientes aguardando por meses por uma cirurgia, considerada de emergência e agravando ainda mais o quadro de saúde.

Além das dificuldades nas unidades de saúde, pacientes também relatam falta de medicamentos nas farmácias, principalmente nas de alto-custo, que são medicações essenciais para manter a sobrevivência das pessoas e que ficam inviáveis de comprar em estabelecimentos convencionais pelo alto valor.

Pessoa em situação de rua, pega água na fonte de água luminosa, principal ponto turístico da capital. Foto: Graciliano Cândido/ Jornal Opção

Situação de rua

Outro desafio enfrentado pelo governo é o aumento da população em situação de rua. De acordo com o Censo de 2025, 3.521 pessoas vivem atualmente nessas condições no DF. Embora o governo tenha lançado iniciativas de acolhimento, incluindo auxílio aluguel e orientações sociais, especialistas apontam lacunas em políticas voltadas à qualificação profissional e inserção no mercado de trabalho.

A presença crescente de pessoas vivendo nas ruas em áreas urbanas tem sido associada por moradores ao aumento da sensação de insegurança, o que amplia a pressão sobre o governo por respostas estruturais. Percorrendo o centro da capital federal, diversas cenas são vistas de pessoas nessa situação. No principal cartão-postal da cidade, a Torre de TV e a feira de artesanato, pessoas em situação de rua são vistas a qualquer hora do dia. Na tarde deste sábado (25), identificamos pessoas circulando pela fonte de água luminosa e, aproveitando para usar aquela água para uso pessoal.

No mesmo dia, outros moradores de rua estavam nas proximidades do Setor Hoteleiro Norte, transitando e pedindo ajuda aos turistas. Em outro momento, outro morador, aproveita a sombra das árvores para colocar a leitura em dia e se atualizar das notícias de um periódico. Em conversa com um vendedor de picolé, que refrescava o passeio dos turistas, ele descreveu a dificuldade de resolver o problema dos moradores de rua. “Com minha rotina de trabalhar nas ruas, vejo muitas coisas, um certo dia, em conversa com um morador de rua ele estava contando umas moedas e disse: ‘faltam 4 reais para eu comprar uma pedra’. A questão não é apenas resgatar ou levar para abrigos para dormir. Então, eles precisam estudar, poder trabalhar para sair do círculo vicioso de morar na rua, pedir dinheiro e usar drogas”, detalhou o vendedor ambulante.

Com o Congresso Nacional ao fundo, morador de rua, coloca a leitura em dia. Foto: Graciliano Cândido/ Jornal Opção

O que se observa é que, Brasília, com 66 anos, e com Celina Leão à frente da administração da cidade, não consegue resolver situações comuns de uma grande metrópole e toca um governo “que não terminou”, ou seja, a gestão mudou de nome, porém, não há sensação de nenhuma mudança e avanços na cidade nos seus praticamente 30 dias de governo.