Grass propõe gestão conjunta entre DF e Goiás e coloca mobilidade do Entorno como primeiro desafio
24 setembro 2026 às 12h07

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O candidato ao Governo do Distrito Federal Leandro Grass (PT) defendeu, nesta quarta-feira (23), durante sabatina promovida pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico, Sustentável e Estratégico do Distrito Federal (Codese-DF), a criação de uma estrutura de governança conjunta entre o DF e Goiás para enfrentar problemas que ultrapassam a divisa entre as duas unidades da Federação. A proposta prevê começar pela mobilidade entre Brasília e os municípios do Entorno e, posteriormente, ampliar a articulação para áreas como saúde, segurança pública, desenvolvimento econômico e gestão de resíduos.
A discussão parte de uma realidade que há anos desafia as administrações dos dois lados da divisa: embora moradores do Entorno utilizem diariamente empregos, serviços e equipamentos públicos do Distrito Federal, decisões sobre transporte, infraestrutura e desenvolvimento continuam submetidas a governos e municípios diferentes.
Grass apresentou a proposta ao responder a uma pergunta de Magda Fernandes, gestora da Câmara Técnica Eixo Brasília-Goiânia e RIDE. Para o candidato, o primeiro obstáculo não seria financeiro ou técnico, mas político. Segundo ele, uma estrutura regional só poderá funcionar se os governos do Distrito Federal e de Goiás assumirem diretamente a articulação. “O primeiro, talvez o primeiro grande entrave, é esse entrave político, que é promover esse diálogo entre os entes”, afirmou.
Grass acrescentou que iniciativas isoladas de prefeituras ou órgãos públicos não seriam suficientes para estruturar um modelo permanente de integração. “Se o governador de Goiás e o governador do DF não levarem isso a sério, não sentarem juntos e liderarem isso, não vai sair”, declarou.
A mobilidade seria o ponto inicial do projeto defendido pelo candidato. A escolha coloca no centro da discussão os deslocamentos diários entre municípios goianos e o Distrito Federal. Regiões como Valparaíso de Goiás, Luziânia, Cidade Ocidental, Novo Gama, Águas Lindas de Goiás e Planaltina de Goiás mantêm relação direta com Brasília, seja pelo mercado de trabalho, pelo comércio ou pelo acesso a serviços.
Na proposta apresentada na sabatina, a criação de uma governança regional permitiria discutir essas demandas de forma conjunta, em vez de cada governo atuar apenas dentro de seus limites administrativos. Atualmente, as Secretarias do Entorno, tanto do DF, como de Goiás, seria um instrumento de governança, com intuito de promover diálogos e colaboração. “Nós podemos começar pela mobilidade, que é o ponto crucial, depois avançar para saúde, zonas econômicas e podendo evoluir para segurança também, a parte de integração das polícias e outras dimensões”, afirmou Grass.
A ideia apresentada, no entanto, ainda depende da definição de como essa estrutura seria constituída, quais entes participariam dela, quais responsabilidades caberiam a cada governo e como seriam divididos os custos dos projetos.
Gama e Santa Maria entram no desenho econômico
Outro ponto apresentado por Grass foi a criação de zonas econômicas integradas entre regiões do Distrito Federal e municípios goianos que já mantêm relações territoriais e comerciais.
Entre os exemplos citados pelo candidato estão Gama e Santa Maria ligados a Valparaíso de Goiás e Luziânia. Ele também mencionou uma possível articulação entre Ceilândia e Águas Lindas de Goiás e entre Planaltina e Formosa.
A proposta seria aproveitar a proximidade territorial para estruturar cadeias econômicas capazes de envolver agricultura, indústria, comércio e serviços dos dois lados da divisa.
Nesse modelo, municípios do Entorno deixariam de ser tratados apenas como cidades que concentram moradores que trabalham no Distrito Federal e passariam a integrar uma estratégia econômica regional. Grass defendeu ainda a formação de consórcios produtivos, fundos e carteiras de projetos para tentar atrair investimentos.
Recursos federais entram na proposta
O candidato afirmou que existem instrumentos capazes de financiar projetos estruturantes e citou o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). “O governo federal tem recurso, tem carteira, tem BNDES aqui pra gente poder pegar, financiar grandes projetos”, disse.
Grass também mencionou o Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste (FCO) como uma das ferramentas que poderiam ser utilizadas para estimular projetos econômicos na região.
A existência de linhas de financiamento, porém, não significa liberação automática dos recursos. Projetos financiados por esses instrumentos precisam cumprir critérios próprios, passar por análise e apresentar condições para receber os investimentos.
Depois da mobilidade e do desenvolvimento econômico, a proposta apresentada pelo candidato prevê ampliar a articulação para áreas diretamente relacionadas ao cotidiano da população.
A intenção seria criar mecanismos de planejamento regional considerando o fluxo de moradores entre Goiás e o Distrito Federal. Grass não detalhou, como seria feita a divisão financeira entre os governos nem quais serviços seriam compartilhados. Na segurança pública, a proposta envolve ampliar a comunicação e a atuação integrada entre as forças policiais.
O argumento é que a dinâmica criminal também não acompanha as fronteiras administrativas. Ocorrências iniciadas no Distrito Federal podem terminar em Goiás — e vice-versa — o que torna a troca de informações entre as corporações parte importante das investigações e operações.
A gestão dos resíduos sólidos foi outro tema relacionado à integração regional durante a sabatina. A proposta é buscar soluções compartilhadas para uma questão que envolve impactos ambientais, ocupação territorial e custos para os municípios.
O assunto foi associado às discussões do Codese sobre economia circular e criação de estruturas regionais para destinação e reaproveitamento de resíduos.
Nesse ponto, uma eventual estrutura metropolitana poderia servir para estabelecer planejamento comum entre localidades próximas, embora o modelo de financiamento e as responsabilidades de cada ente ainda precisassem ser definidos.
A principal questão levantada pela proposta de Grass é transformar uma relação que já ocorre diariamente em uma estrutura administrativa permanente. Brasília e as cidades goianas próximas mantêm conexões por meio do trabalho, do transporte, do comércio, da saúde e de outros serviços. A fronteira política, porém, divide competências, orçamentos e decisões administrativas.
A proposta apresentada pelo candidato tenta colocar essas demandas sob uma mesma mesa de planejamento. Grass afirmou que a integração deveria ultrapassar mandatos e se transformar em política permanente entre os governos. “Então, acho que agora tem muito a ver com a vontade política e com o planejamento”, declarou.
Caso avance, uma estrutura desse tipo dependeria não apenas de entendimento entre o Palácio do Buriti e o governo de Goiás, mas também da participação dos municípios envolvidos e da definição de fontes de financiamento, competências e prioridades.
É justamente nesse ponto que está o principal desafio da proposta: fazer com que uma integração que já existe no cotidiano de quem atravessa diariamente a divisa entre Goiás e o Distrito Federal também funcione no planejamento dos governos.
