Morador do Entorno supera dificuldades, passa no concurso do Itamaraty e se torna novo diplomata
08 janeiro 2026 às 16h19

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Filho de diarista, criado em uma família humilde e morador de Luziânia, no Entorno do Distrito Federal, Douglas Rocha Almeida, de 31 anos, é o mais novo terceiro-secretário da carreira diplomática do quadro permanente do Ministério das Relações Exteriores (MRE). Nascido em Brasília, mas criado em Luziânia, ele foi nomeado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, em dezembro de 2025 e deve tomar posse no próximo dia 20 de janeiro.
A aprovação coroou uma trajetória marcada por persistência, estudo e superação de dificuldades financeiras. Douglas disputou uma das 50 vagas do concurso com outros 8.861 inscritos, em uma concorrência de cerca de 177 candidatos por vaga.
“O concurso foi homologado no dia 5 de novembro de 2025. No início de dezembro, fui ao MRE entregar documentos e exames para a admissão. O Itamaraty já tinha antecipado a data provável da nomeação, mas eu surtei de felicidade quando vi meu nome no Diário Oficial da União”, conta.
Mesmo após cometer um erro no preenchimento do gabarito na prova objetiva, Douglas teve bom desempenho e avançou para a fase discursiva. A confiança inicial, no entanto, deu lugar à frustração após dificuldades inesperadas nas provas de inglês e economia. Convencido de que não seria aprovado naquele ano, chegou a se preparar emocionalmente para tentar novamente em 2026.
O resultado final contrariou as expectativas. Inicialmente classificado em 35º lugar na ampla concorrência, Douglas terminou o concurso na 47ª colocação geral, além de ficar em terceiro lugar entre os candidatos negros — em um certame que reservava dez vagas para cotas raciais. “Foi uma surpresa enorme. Cada etapa foi confirmando que a aprovação era real”, afirma.
A caminhada até o Itamaraty começou cedo. De família humilde, Douglas começou a trabalhar aos 15 anos. Dos 15 aos 27, atuou como garçom em restaurantes, casas de festas infantis e eventos em geral — inclusive depois de já ter concluído o mestrado. “Como garçom, eu ganhava cerca de R$ 150 por dia, mais gorjeta quando tinha. Por ser freelancer, nunca recebi a taxa de serviço de 10%, que ficava só com os garçons contratados”, relata.
A mãe, Cida, é uma das principais motivações da trajetória do diplomata. Mineira, ela deixou a cidade de São Francisco, em Minas Gerais, aos 13 anos, para trabalhar como empregada doméstica em Brasília. Hoje, atua como diarista. “Um dos motivos de eu ter estudado para esse concurso é para que ela possa interromper esse trabalho, que é digno, mas muito cansativo. Ela tem problemas no nervo ciático, Doença de Chagas e gordura no fígado”, afirma Douglas.
O próximo sonho, segundo ele, é garantir mais qualidade de vida à mãe. “Quero construir para ela um espaço de eventos, para que possa alugar e ter uma renda própria”, diz.
Apesar das dificuldades financeiras, Douglas conseguiu construir uma sólida formação acadêmica. Ele é formado em Relações Internacionais pela Universidade Católica de Brasília (UCB), onde estudou com bolsa integral do Programa Universidade para Todos (ProUni). Também é formado em Letras – Espanhol pela Universidade de Brasília (UnB) e mestre em Segurança Internacional e Defesa pela Escola Superior de Guerra (ESG). Durante a graduação, conciliou os estudos com o trabalho como garçom e, mais tarde, conseguiu complementar a renda com traduções de livros para o inglês, após indicação de um professor.
Às vésperas da posse, no próximo dia 20, o morador de Luziânia faz questão de deixar uma mensagem aos jovens do Entorno do Distrito Federal. “Infelizmente, a região não oferece estrutura suficiente para que os jovens sonhem”, afirma. Para ele, o estudo é o caminho mais seguro de ascensão social e de pertencimento. “É o lápis, não o fuzil. Mesmo quando as políticas públicas falham, é preciso confiar no próprio trabalho, na família e persistir até o fim.”
Para Douglas Rocha Almeida, a chegada ao Itamaraty vai além de uma conquista individual. “É a prova de que dá para sonhar alto, mesmo vindo de onde eu vim, e chegar lá.”

Nova etapa
Durante quase toda a preparação para o concurso, Douglas Rocha Almeida morou na casa da mãe, em Luziânia, no Entorno do Distrito Federal, onde conciliou os estudos com a rotina familiar e as dificuldades financeiras. Em fevereiro de 2025, ele se mudou para Paranaguá, no litoral do Paraná, para acompanhar a então noiva — hoje esposa, com quem se casou em novembro — que havia ido para a cidade alguns meses antes. Agora, às vésperas da posse no Itamaraty, o casal se prepara para mais uma mudança: eles deixam Paranaguá e seguem para Luziânia, onde ficarão temporariamente até alugar um apartamento em Brasília, próximo ao Ministério das Relações Exteriores, marcando o início definitivo da nova fase da vida profissional do diplomata.
