As investigações sobre mortes suspeitas de pacientes em um hospital particular do Distrito Federal seguem em andamento e, até o momento, a polícia confirma três casos. O principal investigado, o técnico de enfermagem Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, de 24 anos, apresentou versões diferentes durante os depoimentos, o que, segundo os investigadores, não explica de forma consistente a conduta atribuída a ele.

Em um primeiro momento, o técnico afirmou que teria agido para “aliviar o sofrimento” das vítimas. Depois, disse que o hospital estava em situação de “tumulto” no momento dos fatos. Em outro depoimento, alegou que teria cometido os atos por estar nervoso. Para a polícia, as declarações são contraditórias e a motivação real ainda não foi esclarecida.

Entre as famílias que aguardam respostas está a de João Clemente, de 63 anos, que morreu após passar por cirurgia e ficar internado na UTI. A filha dele, Valeria Leal, afirmou que a família ficou em choque ao saber que a morte pode estar relacionada a um homicídio. “A gente ficou incrédulo, porque isso é coisa que a gente vê em filme de terror. Você não imagina que vai acontecer na vida real”, disse.

Valeria contou que, ainda em novembro, a família solicitou o prontuário médico, mas não conseguiu nem abrir o documento. “É muito doloroso. A gente preferia acreditar que tinha sido a vontade de Deus, que era a hora dele. Nunca que a gente ia imaginar que se tratava de um homicídio dentro de um hospital”, afirmou.

Segundo o relato, João Clemente saiu de casa no dia 4 de novembro dirigindo e falando normalmente. No hospital, foi diagnosticado com um coágulo cerebral. A previsão era de um procedimento considerado simples e alta ainda naquela mesma semana. No entanto, houve uma complicação relacionada à intubação, o que fez com que ele permanecesse mais dias na UTI.

No 13º dia de internação, em 17 de novembro, a família foi informada de que ele havia sofrido três paradas cardíacas ao longo do dia e outra na madrugada do dia 18, quando morreu. “Só fomos informados do que realmente aconteceu na semana passada, quando o hospital entrou em contato. No dia seguinte já fomos à delegacia”, relatou Valeria.

Ela também disse que a identificação de quem entrava no leito era difícil. “Eles ficam paramentados, com máscara e toca. Fica difícil reconhecer. A gente acredita que os momentos em que entraram no leito foram quando minha mãe, que acompanhava meu pai o tempo todo, não estava presente”, afirmou.

Valeria disse ainda que a família se sente revoltada, mas evita generalizações. “A gente sabe que não foi toda a equipe. Mas como pessoas que estudaram para salvar vidas cometem um crime tão grave? Meu pai não vai voltar, nem as outras vítimas. A gente fala para buscar justiça e para que isso nunca mais aconteça com ninguém”, disse, defendendo a adoção de medidas mais rígidas nos protocolos de recrutamento.

Segundo informações repassadas pela Polícia Civil à família, hipóteses como participação de parentes já foram descartadas. A motivação do crime ainda não foi esclarecida, mas, conforme informado pelo delegado, as três vítimas teriam em comum a obesidade mórbida, o que também é analisado na investigação.

Outro caso citado é o do carteiro Marcos Raymundo Fernandes Moreira, de 33 anos, que trabalhava em Brazlândia. Ele morreu no dia 1º de dezembro de 2025, após piora repentina enquanto estava internado na UTI do Hospital Anchieta. Inicialmente, a morte foi atribuída a complicações de pancreatite.

De acordo com o Sindicato dos Trabalhadores dos Correios e Telégrafos do Distrito Federal e Região do Entorno (Sintect-DF), novas informações indicam que um técnico de enfermagem teria acessado o sistema médico de forma irregular, prescrito Cloreto de Potássio, preparado e aplicado a medicação. Logo após, o paciente sofreu parada cardiorrespiratória e morreu. A polícia informou que há evidências consideradas irrefutáveis, como imagens de câmeras. Duas técnicas de enfermagem também são investigadas por suspeita de auxiliar e acobertar a conduta.

O Conselho Regional de Enfermagem do Distrito Federal (Coren-DF) informou que acompanha o caso e destacou que as investigações estão sob responsabilidade das autoridades competentes e tramitam na Justiça. Por isso, o órgão afirmou que não é possível emitir conclusões neste momento, reforçando o respeito ao devido processo legal, ao contraditório e à ampla defesa, além do compromisso com a ética e a segurança dos pacientes.

O Sindicato dos Auxiliares e Técnicos em Enfermagem do DF (Sindate-DF) lamentou o ocorrido, manifestou solidariedade às famílias e afirmou que está à disposição para colaborar dentro dos limites institucionais, reforçando a defesa da ética e do respeito à vida.

Em nota, a Polícia Civil do Distrito Federal esclareceu que não procede a informação de que cerca de 20 mortes estejam sendo investigadas. Segundo a corporação, há três casos confirmados até o momento, e as apurações continuam para verificar se existem outras possíveis vítimas.

Também por meio de nota, o Hospital Anchieta afirmou que mantém compromisso com a segurança do paciente, a ética e a transparência. A instituição informou que possui protocolos internos rigorosos para análise de óbitos e eventos adversos, segue normas da Anvisa e possui certificações nacionais e internacionais. Segundo o hospital, foi a partir desses mecanismos internos que uma situação atípica foi identificada, atribuída a atitudes deliberadas de ex-funcionários. A unidade informou que acionou imediatamente as autoridades e segue colaborando com as investigações, mas que, por sigilo judicial e pela legislação de proteção de dados, não pode comentar detalhes do caso.