Por Ton Paulo e Graciliano Cândido

O carioca Ricardo Cappelli tem uma trajetória marcada pela atuação em movimentos populares e grupos progressistas e, em alguns momentos, revolucionários. Filiado ao PCdoB por quase 30 anos, presidiu a União Nacional dos Estudantes (UNE) na década de 1990 e teria sido um dos responsáveis por levar o então presidente de Cuba, Fidel Castro, ao congresso da entidade. Jornalista por formação e especialista em Administração Pública, seguiu ligado à vida pública.

Os cargos que ocupou são muitos, e de destaque: coordenador especial de Políticas Públicas para a Juventude do governo do Rio de Janeiro; diretor do Departamento de Esporte Universitário do Ministério do Esporte, no início do primeiro mandato de Lula; secretário municipal de Desenvolvimento Social em Nova Iguaçu, entre outros.

Cappelli também foi secretário-executivo do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Tornou-se, inclusive, braço direito do então ministro Flávio Dino, hoje integrante do Supremo Tribunal Federal. Nesta entrevista, aliás, o ex-secretário não poupa elogios ao magistrado, a quem define como uma figura de “sólida formação intelectual e cultural, aliada à capacidade de se tornar uma grande liderança popular”.

Com trajetória consolidada no campo progressista e reconhecida capacidade técnica, o jornalista acabou se tornando também uma espécie de “carta curinga” de Lula. Cappelli chefiou pastas estratégicas, como o Gabinete de Segurança Institucional (GSI), mas o cargo que talvez tenha lhe dado maior projeção foi o de interventor federal após os atos de 8 de janeiro. Ele chegou a publicar um livro sobre a experiência, no qual relata os bastidores de um dos episódios mais graves da democracia brasileira.

Hoje, Ricardo Cappelli se prepara para disputar o governo do Distrito Federal pelo PSB. Sem poupar críticas a Ibaneis Rocha e Celina Leão, atual governadora em exercício do DF, o pré-candidato afirma que ambos ainda terão muito a explicar sobre a relação do BRB com o Banco Master, hoje no centro de uma série de escândalos. O ex-ministro interino do GSI também detalha sua estratégia para a corrida eleitoral e afirma que será necessária uma frente ampla, já que, segundo ele, a esquerda sozinha não vence uma eleição no Distrito Federal.

Ton Paulo — O senhor é pré-candidato ao Governo do Distrito Federal pelo PSB. Quero começar perguntando sobre o fato de a esquerda também ter outro nome na disputa, o Leandro Grass, do PT. Inclusive, saiu uma pesquisa do Instituto Veritá colocando ele na liderança da pré-corrida. Como está o cenário?

Não, aquilo não é pesquisa. Aquilo é lixo. Pode escrever: é lixo. O Instituto Veritá responde a mais de 80 processos na Justiça por manipulação de pesquisa. Aquilo não é pesquisa, aquilo é lixo.

Ton Paulo — Existe uma estratégia por trás do fato de termos dois pré-candidatos do campo progressista, PT e PSB, nessa disputa? Há possibilidade de composição? O que está sendo discutido?

Eu defendo a unidade do campo, mas defendo uma frente ampla. Por quê? Porque a esquerda sozinha não ganha eleição no Distrito Federal. Então, eu defendo que essa frente vá além da esquerda. Esse é o debate que faço hoje com os demais partidos do campo.

Se essa unidade não acontecer, o PSB terá candidato ao Governo do Distrito Federal.

É por isso que a eleição tem dois turnos. No primeiro, cada partido apresenta sua candidatura. No segundo, podem surgir alianças. O PSB terá candidato ao Governo do Distrito Federal.

Ton Paulo — Isso é inegociável?

É inegociável. O PSB terá candidato.

Ton Paulo — Como foi construída a sua pré-candidatura? Imagino que o senhor tenha conversado com o presidente Lula sobre esse projeto, até porque o senhor é um nome de confiança dele e foi interventor após os ataques de 8 de janeiro. Houve essa conversa?

O presidente Lula obviamente sabe que eu sou pré-candidato ao governo. Inclusive, ele gostou muito quando comecei, em janeiro do ano passado, a passar uma semana por mês em uma cidade diferente do Distrito Federal. Eu fico nessas cidades, durmo na casa das pessoas, ando de transporte público.

Faço isso desde janeiro de 2025. Todo mês, uma semana em uma cidade diferente do DF. Ele acompanhou esse movimento e, algumas vezes, me perguntava como estava sendo.

Nunca tivemos uma conversa específica sobre a disputa eleitoral no Distrito Federal. Ele sabe que sou pré-candidato, acompanha esse processo, mas não chegamos a tratar diretamente da eleição.

Eu defendo a unidade do campo, mas defendo uma frente ampla. Por quê? Porque a esquerda sozinha não ganha eleição no Distrito Federal. 

Ton Paulo — Na corrida pelo Senado, Michelle Bolsonaro aparece bem posicionada em algumas pesquisas. O que explica a força do bolsonarismo em Brasília?

A eleição no Distrito Federal está completamente aberta. É natural que, neste momento, nomes mais conhecidos apareçam na frente. Penso que a Michelle vai precisar explicar, por exemplo, o apoio dela à Celina Leão e o apoio do partido dela ao governo Ibaneis e Celina, que conduziu o BRB à situação deplorável que estamos vendo hoje.

O ex-presidente do BRB no governo Ibaneis e Celina Leão está preso por fraudes bilionárias. E esse governo teve o apoio da Michelle Bolsonaro. Acho que ela terá de explicar isso durante a campanha.

“Eu defendo a unidade do campo, mas defendo uma frente ampla” | Foto: Graciliano Cãndido/Jornal Opção

Então, vejo uma eleição ainda muito aberta. Muita coisa vai acontecer até o pleito. Não há favorito neste momento. O escândalo BRB Master ainda vai avançar muito. Vêm aí as delações de Paulo Henrique Costa e Daniel Vorcaro. Muita coisa ainda deve acontecer no Distrito Federal.

Ton Paulo — O PSB terá candidato ao Senado?

Com certeza. Ainda estamos construindo, mas teremos chapa para o Senado. O PSB terá chapa no Distrito Federal.

Nossa expectativa é construir essa composição com partidos aliados.

Ton Paulo — Quais partidos estão com o PSB hoje?

Neste momento, ninguém tem aliados definidos. Só a Celina, porque está no governo. Nenhum candidato hoje tem apoio consolidado. Estamos justamente na fase de construção dessas alianças. Conversamos com o PDT, com o próprio PT, com o PSOL, com o PSDB e também com o Solidariedade. Dialogamos com uma gama ampla de partidos.

Ton Paulo — O senhor mencionou o PSDB. Houve conversas em nível nacional entre PSDB e PT, inclusive entre o presidente Lula e Aécio Neves. Depois da rejeição da indicação de Messias, essas conversas parecem ter ganhado mais força. Existe possibilidade de composição com o PSDB aqui em Brasília?

A principal liderança do PSDB aqui é a deputada distrital Paula Belmonte, com quem tenho excelente relação e muita admiração.

Nós temos conversado. Neste momento, ela também é pré-candidata ao Governo do Distrito Federal pelo PSDB. Mas seguimos dialogando e não descartamos estar juntos.

Ton Paulo – Já tem algum nome no radar para vice?

Estamos nesse processo de construção, tanto para vice quanto para o Senado. Conversamos com partidos do campo progressista, com partidos de centro e também com pessoas da centro-direita. Estamos dialogando com todos.

Temos apenas dois critérios para construir alianças: não apoiar Bolsonaro e não apoiar Ibaneis e Celina. Quem faz oposição a Ibaneis e Celina e não está com Bolsonaro pode estar conosco.

Nossa intenção é construir uma chapa com partidos aliados. Temos conversado bastante com o Solidariedade, do ex-senador Reguffe; com o PSDB, da deputada Paula Belmonte; e com o PDT, da senadora Leila Barros.

Graciliano Cândido — Então existe a possibilidade de o PSDB também apoiar o Reguffe? Porque ele pode disputar o Senado.

O Reguffe ainda não anunciou nada oficialmente. Mas é um nome muito importante, que conta com nosso respeito e admiração. Não haveria problema algum. Muito pelo contrário: seria uma alegria estarmos juntos em uma chapa com o Reguffe.

Ton Paulo — O senhor mencionou agora há pouco Paulo Henrique, ex-presidente do BRB, que está preso. O senhor também citou a possível delação dele, que pode mudar muita coisa no cenário político. Ao mesmo tempo, há outros nomes ligados ao escândalo envolvendo Daniel Vorcaro e o BRB, como o ex-governador Ibaneis Rocha, que ainda é investigado. Paulo Henrique está preso, mas Ibaneis, até o momento, não sofreu responsabilização. Por que isso acontece? O senhor acredita que exista alguma influência protegendo o ex-governador?

Você acha que o presidente de um banco público compra R$ 12 bilhões em papéis fraudados sem que o governador tenha conhecimento?

Temos apenas dois critérios para construir alianças: não apoiar Bolsonaro e não apoiar Ibaneis e Celina. Quem faz oposição a Ibaneis e Celina e não está com Bolsonaro pode estar conosco

A informação que tenho é que ele já responde a processos relacionados ao caso. E ainda vêm as delações de Paulo Henrique Costa e Daniel Vorcaro. A primeira proposta foi rejeitada, mas acredito que Vorcaro vai insistir no acordo. Vamos ver o que surge daí.

Eu acho muito difícil que tudo isso tenha acontecido no BRB sem participação direta do Ibaneis. Precisamos aguardar o avanço das investigações.

“Você acha que o presidente de um banco público compra R$ 12 bilhões em papéis fraudados sem que o governador tenha conhecimento?” | Foto: Graciliano Cândido/Jornal Opção

Politicamente, ele terá muita dificuldade, porque a população acompanha esse escândalo e sabe que o maior escândalo da história do sistema financeiro nacional aconteceu no governo dele.

Ton Paulo — O escândalo do Banco Master acabou atingindo diferentes setores, inclusive integrantes do Judiciário e do Executivo. Até que ponto isso afeta a imagem do presidente Lula? O senhor acredita que o presidente pode ser comprometido por esse caso?

Esse escândalo não compromete em nada o presidente Lula. Zero. O caso começou no governo Bolsonaro. O Banco Master cresceu e se desenvolveu sob as barbas de Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central indicado por Jair Bolsonaro.

Quem aparece recebendo mesada milionária é Ciro Nogueira, ex-chefe da Casa Civil de Bolsonaro. E quem mandou investigar foi a Polícia Federal do governo Lula. Quem interveio e liquidou o Master foi Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central nomeado por Lula.

Então, Lula não tem relação com o escândalo Master. Trata-se de um caso que foi gestado no governo Bolsonaro e enfrentado no governo Lula.

Ton Paulo — O senhor tem propriedade para falar sobre o 8 de janeiro, já que foi interventor federal após os ataques. O STF teve papel central naquele momento. Agora, porém, a Corte enfrenta desgaste de imagem por conta desse escândalo. O senhor acha que isso pode deteriorar ainda mais a confiança nas instituições que atuaram na defesa da democracia?

Não há dúvida de que precisamos discutir uma reforma do Judiciário. E isso não se restringe ao Supremo Tribunal Federal, mas ao sistema como um todo.

O ministro Flávio Dino, por exemplo, tem enfrentado de forma corajosa a questão dos penduricalhos, que são um absurdo. Existe um teto constitucional e ele deveria valer para todos. Como os próprios responsáveis por fazer cumprir a lei ultrapassam esse teto?

Então, acho que não podemos concentrar todos os problemas apenas no STF. Também é preciso separar as coisas. Uma questão são eventuais problemas decorrentes de investigações ainda em andamento. Outra, completamente diferente, é a atuação do Supremo na defesa da Constituição e da democracia durante e após o 8 de janeiro. Nesse aspecto, a atuação do STF foi irretocável.

“A Aava é uma pessoa extraordinária, uma liderança muito especial. Ela é uma mulher evangélica que consegue fazer com que o campo progressista e democrático tenha voz e interlocução junto aos evangélicos” | Foto: Graciliano Cãndido/Jornal Opção

Graciliano Cândido — Voltando à questão do Banco Master: o senhor acha que esse escândalo, um dos maiores do mercado financeiro brasileiro, pode enterrar a candidatura da Celina?

Não tenho dúvida de que eles terão muita dificuldade. Como vão explicar para a população do Distrito Federal que pegaram R$ 20 bilhões do BRB, que é o banco do povo do Distrito Federal, e compraram papéis podres de um banco falido, hoje liquidado?

E não é só isso. Além do problema no BRB, as contas do Distrito Federal vivem hoje um cenário de colapso. Quem diz isso não sou eu, é o próprio secretário de Economia do DF, indicado pela Celina.

Ele afirmou que “o governo é uma máquina desgovernada” e disse que, apenas no primeiro trimestre do ano, já existe um rombo de R$ 3 bilhões. Eu tenho uma equipe estudando o orçamento e, na nossa avaliação, esse rombo não é menor que R$ 8 bilhões.

Acho que eles terão muita dificuldade para explicar à população as fraudes no BRB, o caos na saúde e a situação das contas públicas. E essa bomba-relógio ainda está longe de acabar. Até o fim do mês, o BRB precisará apresentar um balanço financeiro. O último balanço divulgado pelo banco foi referente ao segundo trimestre de 2025. Desde então, é um banco que opera, entre aspas, “no escuro”.

Ninguém sabe exatamente o que existe lá dentro, ninguém sabe o tamanho real do rombo. Mas, desta vez, até o fim do mês eles terão de apresentar alguma coisa.

Ton Paulo — O senhor esteve no evento de posse de Aava Santiago como presidente do diretório estadual do PSB em Goiás. Como avalia a gestão que ela vem fazendo no partido?

Ela é uma figura muito próxima do presidente Lula e bastante proeminente no campo da esquerda, não apenas em Goiás, mas também nacionalmente.

A Aava é uma pessoa extraordinária, uma liderança muito especial. Ela é uma mulher evangélica que consegue fazer com que o campo progressista e democrático tenha voz e interlocução junto aos evangélicos. Então, considero o trabalho dela extraordinário. Ela vem fazendo um trabalho muito bom, e eu, aqui do lado, como vizinho, estou torcendo muito por ela.

Além do problema no BRB, as contas do Distrito Federal vivem hoje um cenário de colapso

Ton Paulo — Ela garante que será candidata a deputada federal. Apesar disso, existe certa pressão dentro do campo da esquerda para que dispute o governo de Goiás com apoio do PT. Ela rejeita essa possibilidade de forma bastante enfática, mas o senhor acha que ela deveria reavaliar isso?

Eu apoio qualquer decisão que a Aava tomar. Estou com a Aava e não abro. Tenho certeza de que qualquer escolha dela será a melhor decisão.

Ton Paulo — O presidente Lula tem investido em programas e projetos de grande apelo popular, como a isenção do Imposto de Renda, o fim da escala 6×1 e programas de renegociação de dívidas com bancos. Mesmo assim, ainda enfrenta índices consideráveis de desaprovação. O que ele pode fazer para chegar mais forte ao pleito?

Eu acho que o presidente Lula vai chegar forte e será reeleito, porque, neste momento, ele está governando. O presidente Lula está trabalhando. Enquanto isso, Flávio Bolsonaro está apenas em campanha. Quando chegar a hora de comparar os governos de Lula e Jair Bolsonaro, essa comparação será impossível de sustentar para eles.

O governo Bolsonaro deixou mais de 700 mil mortos durante a pandemia. Deixou também um déficit de quase R$ 200 bilhões para o presidente Lula. Deu calote nos precatórios e no ICMS dos estados.

O que Bolsonaro entregou? E o que Flávio Bolsonaro tem para apresentar da própria trajetória? Quando se fala em Flávio Bolsonaro, o que vem à cabeça? Eu lembro dos mais de 30 apartamentos comprados em dinheiro vivo. Lembro da rachadinha. Lembro da homenagem ao capitão Adriano, apontado como chefe do Escritório do Crime no Rio de Janeiro.

O que Flávio Bolsonaro entregou ao país? Comparar a biografia dele com a do presidente Lula chega a ser constrangedor. Hoje, o Brasil é um dos poucos países do mundo em crescimento. Temos a menor taxa de desemprego da história, aumento da renda média e uma das menores inflações dos últimos 20 anos. Como comparar isso com o governo Bolsonaro?

Penso que, no momento certo, essa comparação será feita. E eu não tenho dúvida de que o presidente Lula será reeleito.

Ton Paulo — Existe uma questão histórica que atravessa diferentes governos e segue sem solução definitiva: a infraestrutura do Entorno do DF. Muitas vezes, parece um problema sem paternidade definida entre Goiás e Distrito Federal. O senhor já tem projetos definidos para isso?

Paternidade definida existe. Valparaíso é Goiás. Novo Gama é Goiás. Luziânia é Goiás. Águas Lindas é Goiás.

O que falta é um projeto sério de cooperação e integração entre os governos. E, hoje, a principal questão que precisamos enfrentar é o transporte público. Muitos moradores do Entorno vêm diariamente ao DF para trabalhar. E, embora ainda existam problemas em áreas como saúde, a situação melhorou bastante nos municípios do Entorno.

Melhorou em Águas Lindas, em Valparaíso, em Luziânia. Antes, praticamente todo o atendimento recaía sobre o DF. Hoje, inclusive, há inversão de fluxo: pessoas do DF estão buscando atendimento no Entorno. O que eu escuto é que a saúde em algumas dessas cidades funciona melhor do que aqui.

Mas o grande problema continua sendo o transporte. Hoje, as tarifas no DF variam entre R$ 3,80 e R$ 5,50. Mesmo assim, o governo do DF complementa os custos das empresas de ônibus com subsídios, porque, segundo elas, a tarifa não cobre as despesas da operação.

Atualmente, o governo repassa mais de R$ 200 milhões por mês às empresas de ônibus. Isso representa cerca de R$ 2,5 bilhões por ano para apenas cinco empresas do DF.

Melhorou em Águas Lindas, em Valparaíso, em Luziânia. Antes, praticamente todo o atendimento recaía sobre o DF. Hoje, inclusive, há inversão de fluxo: pessoas do DF estão buscando atendimento no Entorno

Para comparar: o custo anual do metrô gira entre R$ 100 milhões e R$ 120 milhões por quilômetro. Quando o governo Ibaneis e Celina assumiu, o subsídio ao transporte era de cerca de R$ 630 milhões. Como esse valor saltou para R$ 2,5 bilhões? Essa é uma caixa-preta que nós vamos abrir.

Ton Paulo — O Jornal Opção já publicou uma reportagem sobre a favela Sol Nascente e a realidade da região. O senhor esteve lá recentemente. Caso consolide sua candidatura e seja eleito governador, quais seriam as propostas para melhorar a situação das pessoas que vivem ali?

Nós precisamos avançar na urbanização das áreas que ainda carecem de infraestrutura. Também precisamos ampliar os equipamentos públicos, como escolas, creches e atendimento de saúde dentro da própria comunidade.

Hoje, a UPA que atende o Sol Nascente é a UPA da Ceilândia. O Sol Nascente precisa ter uma UPA própria. E nós também precisamos enfrentar a grilagem de terras, que é um problema histórico da região.

Todo mundo sabe quem são os grileiros e quem vende terra ilegalmente no Sol Nascente. Então, por que nada é feito? Essa é a pergunta. Eu andei muito pela região. Um exemplo é o CRAS, o Centro de Referência da Assistência Social, que dá acesso ao Bolsa Família e a outros programas sociais. A população não consegue atendimento. As pessoas ligam para o serviço de agendamento do governo e nunca encontram vaga. Mas, quando vão a uma lan house e pagam R$ 30, conseguem marcar. Ou seja: tem gente vendendo vaga na fila do CRAS.

Eu já denunciei isso, inclusive à polícia. Então, precisamos promover uma transformação no Sol Nascente. Não apenas na infraestrutura urbana, mas também na segurança pública, no combate à grilagem e na ampliação da rede de saúde, com pelo menos uma UPA na região.

Graciliano Cândido — O senhor foi interventor federal após o 8 de janeiro e, inclusive, publicou um livro sobre o tema. Quem foi o principal responsável por esse episódio que marcou a história do país?

O principal responsável se chama Jair Messias Bolsonaro. Depois que perdeu as eleições, ele começou a incentivar atitudes golpistas no Brasil. Todo mundo se lembra do general Heleno dizendo: “Aguardem, vem coisa aí”. O que era isso?

Bolsonaro passou os quatro anos do governo atacando as urnas eletrônicas, o TSE, o Supremo Tribunal Federal e a imprensa, tentando desestabilizar as instituições da República. Assim que perdeu as eleições, surgiram os acampamentos em frente aos quartéis-generais do Exército.

A tentativa de golpe tem um chefe, que inclusive está preso por determinação do Supremo Tribunal Federal. Isso não é narrativa. São fatos históricos, investigados pela Polícia Federal, com provas e elementos concretos.

“A tentativa de golpe tem um chefe, que inclusive está preso por determinação do Supremo Tribunal Federal. Isso não é narrativa” | Foto: Graciliano Cãndido/Jornal Opção

Eu vi de perto aqueles acampamentos em frente aos quartéis. Eram verdadeiras cidadelas, com geradores, cozinhas industriais, centrais multimídia e banheiros químicos instalados diante dos quartéis-generais do Exército.

Nada disso teria acontecido sem, no mínimo, a conivência do então comandante em chefe das Forças Armadas, Jair Messias Bolsonaro. E o 8 de janeiro não começou no dia 8. Foi algo construído ao longo dos quatro anos do governo Bolsonaro, com ataques constantes às instituições, à imprensa, ao TSE e às urnas eletrônicas.

Ton Paulo — O senhor acredita que Ibaneis e Celina tiveram alguma influência no que aconteceu?

Mesmo tendo sido retirado do inquérito, Ibaneis tem, no mínimo, responsabilidade política. Foi, no mínimo, imprudente ao nomear Anderson Torres para a Secretaria de Segurança do Distrito Federal.

Não é razoável pegar o ministro da Justiça e Segurança Pública de Jair Bolsonaro, um governo com claras intenções golpistas, e colocá-lo para cuidar da segurança da capital do país.

Flávio Dino reúne algo raro: uma sólida formação intelectual e cultural, aliada à capacidade de se tornar uma grande liderança popular

A Constituição estabelece que a segurança da capital federal e dos poderes constituídos é responsabilidade do Distrito Federal. Entregar essa função a alguém que era peça central do governo Bolsonaro foi uma temeridade.

Graciliano Cândido — O colunista Lauro Jardim, de O Globo, publicou que a delação de Paulo Henrique Costa, do BRB, deve citar Celina Leão. Ela nega. Como o senhor avalia isso?

Vamos aguardar as investigações. Ainda vêm as delações de Daniel Vorcaro e de Paulo Henrique Costa. Tenho certeza de que ainda haverá muitas surpresas. Vai ter muita gente dizendo que não sabia de nada e que não participou de nada, mas que pode acabar bastante enrolada com o que vem por aí. Eu confio nas investigações.

Graciliano Cândido — O pré-candidato ao Senado por Goiás e figura histórica do PCdoB, Aldo Arantes, afirmou em entrevista ao Jornal Opção que o ministro do STF Flávio Dino pode ser presidente da República em 2030. Como o senhor avalia o nome dele?

Eu passei 26 anos no PCdoB e estou há cinco anos no PSB. Então conheço bem o Flávio Dino.

É natural que ele seja lembrado para qualquer projeto político ou cargo no Brasil. Flávio Dino é um quadro extraordinário, com quem tive o privilégio e a honra de trabalhar durante nove anos.

Ele reúne algo raro: uma sólida formação intelectual e cultural, aliada à capacidade de se tornar uma grande liderança popular. Flávio Dino é um patrimônio do Brasil. Não tenho dúvida de que ainda terá um papel muito importante no futuro do país.

Ton Paulo — Como pré-candidato ao Governo do Distrito Federal, o senhor não considera importante ampliar o diálogo com o governo de Goiás?

Claro. Inclusive, uma curiosidade: eu me dou muito bem com o ex-governador e atual pré-candidato Marconi Perillo. E também estudei com o atual governador, Daniel Vilela. Nós fomos da mesma turma do Cipad, a pós-graduação em Administração Pública da FGV, em Brasília.

Na época, ele era deputado estadual e sempre foi um aluno muito disciplinado. Vinha de Goiás para Brasília para assistir às aulas. Então, eu o conheço bem e também tenho boa relação com o Marconi.

Ton Paulo — O senhor tem preferência por algum deles na disputa pelo Palácio das Esmeraldas?

Minha preferência é por quem a Aava Santiago decidir apoiar. Em Goiás, eu sou do time da Aava.