Farmácia de Alto Custo muda agendamento, mas filas e falhas colocam novo modelo à prova no DF
02 outubro 2026 às 11h10

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As Farmácias de Alto Custo do Distrito Federal começaram outubro com uma nova tentativa de enfrentar um problema antigo: as longas filas enfrentadas por pacientes que dependem de medicamentos fornecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O Agenda-DF deixou de ser utilizado para retirada e renovação, e o paciente passa a poder sair do atendimento presencial com a data e o horário do próximo retorno já definidos.
A mudança promete dar previsibilidade aos cerca de 56 mil usuários atendidos pelas unidades do Componente Especializado da Assistência Farmacêutica (Ceaf). Na prática, porém, o novo modelo começa cercado por uma pergunta: marcar previamente o retorno será suficiente para acabar com as horas de espera enfrentadas por quem depende do serviço?
Em maio deste ano, a própria Secretaria de Saúde apresentou o agendamento pelo Agenda-DF como uma medida para ampliar o acesso, organizar o atendimento e reduzir as filas presenciais. Menos de cinco meses depois, a plataforma deixou de ser utilizada para esse serviço.
O problema, portanto, não começou com o novo sistema.
Espera chegou a durar horas
Na unidade da 102 Sul, uma das três Farmácias de Alto Custo do DF, as filas atravessaram diferentes modelos de atendimento.
Antes do agendamento eletrônico, pacientes chegavam à unidade, retiravam senhas de acordo com o tipo de serviço como dispensação de medicamentos ou renovação de processo e aguardavam o atendimento. Em dias de maior movimento, relatos obtidos pela reportagem apontam esperas que podiam chegar a seis ou sete horas.
Em maio, o Jornal Opção mostrou pacientes com doenças graves relatando horas de espera, dificuldades para renovar cadastros e problemas para conseguir atendimento na unidade da Asa Sul.
O problema também chegou aos órgãos de controle.
Neste ano, o Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) abriu apuração após receber denúncia sobre demora de até quatro horas para retirada de medicamentos na unidade da 102 Sul.
O documento encaminhado ao Tribunal apontava filas extensas, falta de assentos, déficit de profissionais e dificuldades enfrentadas principalmente por idosos, pessoas debilitadas e pacientes com mobilidade reduzida.
A própria Secretaria de Saúde reconheceu ao TCDF o longo tempo de espera e o aumento da demanda em determinados períodos. Segundo o Tribunal, as medidas anunciadas pela pasta para enfrentar o problema não haviam sido acompanhadas, naquele momento, de documentos que comprovassem a efetiva implementação das ações.
Sistema criado para diminuir filas também enfrentou problemas
Em 15 de maio, o GDF implantou o agendamento pela internet por meio do Agenda-DF. A proposta era justamente permitir que o usuário marcasse a retirada do medicamento ou a renovação dos documentos antes de ir à unidade.
As vagas eram disponibilizadas para Asa Sul, Ceilândia e Gama. Na época, a Secretaria de Saúde afirmou que a ferramenta daria mais comodidade e organização e ajudaria na redução das filas.
Na prática, as reclamações não desapareceram.
Em junho, pacientes relataram esperas superiores a três horas na Farmácia de Alto Custo mesmo com atendimento previamente agendado.
Na reta final de setembro, novos problemas apareceram. Usuários disseram encontrar calendários sem vagas ou datas bloqueadas no sistema digital. Uma paciente com diabetes tipo 1 relatou que precisou ir à unidade da Asa Sul sem agendamento para não correr o risco de ficar sem insulina.
Ou seja: o agendamento, sozinho, não eliminou as filas.
Desde 1º de outubro, o Agenda-DF não é mais utilizado para os serviços de retirada de medicamentos e renovação nas Farmácias de Alto Custo. O próprio portal informa que esses serviços passaram para o Ceaf Digital.
A principal diferença é que o paciente atendido presencialmente pode sair da farmácia com o próximo dia e horário já programados, de acordo com a disponibilidade da agenda.
Nos casos de renovação, o próximo atendimento também pode ser programado pela unidade.
O Ceaf Digital continua disponível para cadastro, envio de receitas, exames e outros documentos, novas solicitações de medicamentos, acompanhamento dos pedidos e reagendamento.
Para quem não possui acesso à internet ou encontra dificuldade para utilizar a plataforma, a Secretaria afirma que há monitores nas unidades com tablets para auxiliar os pacientes.
E quem chegar sem horário marcado?
Segundo a SES-DF, o atendimento por demanda espontânea continua existindo. As senhas são distribuídas ao longo do dia de acordo com a capacidade de cada unidade, considerando pacientes agendados, número de servidores e andamento dos atendimentos. A distribuição ocorre das 7h às 18h.
Informação desencontrada já apareceu na transição
Um dos primeiros problemas do novo fluxo está justamente na comunicação com os pacientes.
Na unidade da 102 Sul, um aviso colocado na entrada informava que, a partir de outubro, o atendimento ocorreria somente com agendamento e que pacientes sem marcação não seriam atendidos.
A orientação exposta na unidade contradizia a informação oficial da Secretaria de Saúde, segundo a qual pacientes sem agendamento continuam sendo recebidos, dentro da capacidade diária de atendimento.
Para uma população que inclui idosos, pessoas com doenças crônicas e usuários que percorrem grandes distâncias para buscar medicamentos, a diferença entre as duas orientações não é pequena.
Aos 75 anos, paciente enfrenta fila e sai sem medicamento
A burocracia também pode transformar uma escolha errada de senha em mais um dia sem medicamento.
Romário Farias, de 75 anos, esteve na unidade da 102 Sul para retirar a medicação. Segundo relato acompanhado pela reportagem, ele estava com a documentação necessária, aguardou na fila e chegou ao guichê, mas não conseguiu fazer a retirada.
Romário havia retirado uma senha para dispensação comum de medicamento, mas seu processo precisava passar primeiro pela renovação. Mesmo depois da espera, o procedimento não foi concluído naquele atendimento.
O caso expõe um problema que vai além da existência de uma plataforma digital: o paciente precisa compreender corretamente em qual etapa está o processo para conseguir chegar ao serviço adequado.
Para idosos ou pessoas com pouca familiaridade com sistemas digitais e procedimentos administrativos, a mudança exige que a orientação dentro das unidades também funcione.
Marcar horário não garante que medicamento estará disponível
Há ainda outro problema que nenhum sistema de agendamento resolve sozinho: o abastecimento.
Pacientes ouvidos pela reportagem relatam episódios em que comparecem à unidade e descobrem que o medicamento necessário não está disponível, sem previsão clara de quando poderão fazer a retirada.
A falta de medicamentos nas Farmácias de Alto Custo não é uma questão recente. O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios acompanha o funcionamento do serviço há anos. Em 2019, um inquérito civil já apurava demora no atendimento e falta de medicamentos especializados.
Em 2025, após uma inspeção na unidade do Gama, o MPDFT voltou a cobrar providências da Secretaria de Saúde e informou que realiza monitoramento sistemático do Ceaf, inclusive por meio do acompanhamento trimestral dos estoques das três unidades.
O próprio planejamento da Secretaria prevê a disponibilização de informações sobre os estoques das unidades de Asa Sul, Ceilândia e Gama.
Por isso, para quem depende de insulina, imunossupressores e outros medicamentos de uso contínuo, previsibilidade não significa apenas saber quando será atendido. É preciso saber se o remédio estará disponível quando chegar ao guichê.
A mudança traz uma vantagem objetiva: quem consegue retirar normalmente o medicamento não precisa disputar novamente uma vaga no mês seguinte, pois pode sair com o retorno programado.
Também pode diminuir uma barreira criada pelo próprio modelo implantado em maio, quando pacientes precisavam acessar periodicamente a internet para procurar horários disponíveis.
Mas ainda é cedo para afirmar que o novo fluxo resolveu o problema das Farmácias de Alto Custo.
Para medir a efetividade da mudança, será necessário observar indicadores que vão além do número de agendamentos: tempo médio de espera, quantidade de pacientes atendidos sem marcação, número de pessoas que deixam a unidade sem medicamento, disponibilidade dos remédios, facilidade para reagendar e impacto sobre idosos e usuários sem acesso à internet.
