A saída de José Roberto Arruda (PSD) da disputa pelo Governo do Distrito Federal, confirmada nesta quinta-feira (24) pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), abriu uma corrida paralela a poucos dias do primeiro turno: a tentativa dos candidatos que permanecem na eleição de conquistar os eleitores que haviam escolhido o ex-governador. Com Arruda fora da campanha e sem anunciar apoio a um dos adversários, Celina Leão (PP), Leandro Grass (PT), Paula Belmonte (PSDB) e Kiko Caputo (Novo) passam a disputar um grupo que pode ter peso na configuração da reta final da eleição.

A mudança ocorre quando a campanha entra em seus últimos dias e impõe aos adversários uma questão que até então não estava colocada com a mesma intensidade: quem conseguirá dialogar com o eleitor que pretendia votar em Arruda?

A resposta não é automática.

Embora Arruda tenha construído sua candidatura em um campo mais próximo da centro-direita, especialistas ouvidos pelo Jornal Opção Brasília/Entorno avaliam que identificação ideológica não é o único elemento capaz de definir a transferência desses votos. Rejeição ao atual governo, identificação pessoal com o ex-governador e o posicionamento que Arruda adotar — ou decidir não adotar — também podem influenciar o comportamento do eleitor.

Se Arruda acenar para Leandro Grass, a campanha do petista pode ser “turbinada” e continuar na crescente que vem ocorrendo nas últimas pesquisas. Um acordo entre ambos pode representar uma esperança para o eleitorado de Arruda. Até mesmo uma definição de Arruda compor o governo do petista em alguma secretaria importante vai injetar mais ânimo na corrida de Grass ao Buriti. Haja visto que Leandro Grass (PT), vem assumindo a 2ª e 3ª colocação nas pesquisas eleitorais.

Leandro Grass também sinalizou interesse em dialogar com esse eleitorado, mas por outro caminho. O candidato do PT destacou a relação respeitosa mantida com Arruda durante a campanha e afirmou que parte dos eleitores do ex-governador estaria procurando uma mudança no comando do Distrito Federal.

A estratégia de Grass, portanto, tende a enfrentar uma barreira ideológica apontada por Ricardo Caldas, mas procura explorar outro fator: o voto de oposição.

Isso significa que a saída de Arruda pode produzir movimentos diferentes dentro de seu próprio eleitorado. Parte poderá buscar uma candidatura ideologicamente semelhante; outra poderá priorizar a oposição ao governo; e também há eleitores que podem optar pela abstenção, pelo voto branco ou nulo. Sem levantamento específico realizado depois da decisão do TSE, a dimensão de cada movimento permanece indefinida.

Kiko pode herdar parte do eleitorado, avalia cientista político

Para o cientista político Ricardo Caldas, a proximidade ideológica coloca Kiko Caputo (Novo) entre os candidatos com possibilidade de atrair parte desse eleitorado. “O Arruda é um candidato mais de centro-direita, então o eleitor mais próximo dele vai votar nesse espectro. Dificilmente o eleitor dele vai para o Leandro Grass, por exemplo, que é o candidato de centro-esquerda, o oposto ideológico dele”, afirmou.

Caldas também considera que a disputa direta travada entre Arruda e Celina Leão ao longo da campanha pode dificultar uma migração automática para a candidata do PP. “E, ao mesmo tempo, se eles estavam com o Arruda, havia alguma animosidade em relação à Celina. Então, dificilmente esse eleitor dele vai para Celina. O candidato mais próximo ideologicamente é o Kiko”, acrescentou.

Paula Belmonte quer conversar diretamente com Arruda

Paula Belmonte adotou uma estratégia mais explícita. A candidata do PSDB anunciou que pretende procurar pessoalmente Arruda e conversar também com lideranças e apoiadores ligados ao ex-governador. “Vou procurar o Arruda para conversar, porque acredito que precisamos unir aqueles que defendem uma mudança no Distrito Federal. Quero apresentar a ele o nosso projeto e buscar o seu apoio à nossa candidatura”, afirmou.

Paula também associou sua tentativa de aproximação à oposição aos governos de Ibaneis Rocha e Celina Leão. “Eu tenho condições de enfrentar a Celina nesta eleição. Sou uma mulher que conhece Brasília, tenho experiência, independência e um projeto para a nossa cidade”, declarou.

A movimentação mostra que a disputa não ocorre apenas pelo voto individual de quem pretendia escolher Arruda. As campanhas também observam a estrutura política construída em torno do ex-governador, formada por lideranças, apoiadores e grupos regionais.

Uma eleição redesenhada a poucos dias das urnas

Mais do que retirar um nome da disputa, a decisão do TSE altera a dinâmica política da reta final. Os candidatos passam a enfrentar dois desafios simultâneos: preservar o eleitorado que já conquistaram e convencer uma parcela dos eleitores que, até esta quinta-feira, tinha Arruda como opção para o Palácio do Buriti.

Celina aposta na identificação com a centro-direita. Kiko aparece, na avaliação de Ricardo Caldas, como alternativa ideologicamente próxima. Paula Belmonte busca uma aproximação direta com Arruda e suas lideranças. Grass tenta dialogar com a parcela desse eleitorado que vê a eleição sob a perspectiva de mudança de governo.

O tamanho real dessa redistribuição, entretanto, dependerá do comportamento dos eleitores nos próximos dias — e de eventuais novas pesquisas capazes de medir o cenário já sem Arruda na disputa.

Com a eleição próxima, a saída do ex-governador transforma um eleitorado antes concentrado em uma candidatura em um dos principais territórios de disputa da reta final da campanha.

Queda na aprovação de Celina

A disputa pelos eleitores de José Roberto Arruda ocorre em um momento em que a avaliação do governo de Celina Leão também passa a ocupar espaço importante na reta final da eleição. Para Alexandre Garcia, CEO da Opinião Inteligência Política, a evolução dos índices de aprovação da atual gestão é um dos fatores que precisam ser considerados para compreender o cenário eleitoral após a saída do ex-governador.

Segundo Garcia, as rodadas realizadas pelo instituto apontam uma redução gradual da parcela dos entrevistados que aprova o governo de Celina. No levantamento mais recente citado por ele, os percentuais de aprovação e desaprovação ficaram praticamente equilibrados, ambos na casa dos 43%. “A questão fundamental que a gente observa ao longo das rodadas é a pergunta sobre a aprovação do governo de Celina. Ela vem numa tendência de queda nessa avaliação e é justamente esse fator que pode atrapalhar a possibilidade de uma eleição em primeiro turno”, afirmou Alexandre Garcia.

Para o CEO da Opinião Inteligência Política, o comportamento observado não estaria restrito a uma única pesquisa. Na avaliação dele, a sequência dos levantamentos aponta para uma tendência que pode interferir na capacidade da candidata de ampliar sua vantagem nesta fase da campanha. “Ela vem diminuindo a cada rodada a proporção de eleitores que aprovam o seu governo. Na nossa última rodada, o percentual dos que aprovam e desaprovam se igualou na casa dos 43% e consolida essa tendência de queda. Portanto, o que pode afetar essa possibilidade é justamente a avaliação do eleitor em torno da gestão da governadora”, acrescentou.