Candidaturas de autistas crescem mais de cinco vezes nas eleições de 2026
07 setembro 2026 às 10h34

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O número de candidatos que se declararam autistas à Justiça Eleitoral cresceu mais de cinco vezes entre as eleições gerais de 2022 e 2026. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), foram registrados 70 pedidos de candidatura de pessoas que se identificaram como autistas neste ano, contra 13 há quatro anos.
Do total, 39 candidatos disputam vagas de deputado estadual, enquanto 22 concorrem a deputado federal. Há ainda cinco candidatos à Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), três a vice-governador e um a primeiro suplente.
O crescimento ocorre em sentido contrário ao número geral de candidaturas, que caiu de 29.262, em 2022, para 20.829 neste ano, segundo a base de dados do TSE, que ainda pode sofrer alterações durante a atualização dos registros.
Cinco candidatos disputam vagas na Câmara Legislativa do DF
No Distrito Federal, cinco pessoas que se declararam autistas estão na disputa por uma vaga de deputado distrital nas eleições de 2026.
A presença de candidatos autistas na corrida eleitoral amplia a participação de pessoas com deficiência e neurodivergentes no processo político e coloca em evidência temas como inclusão, acessibilidade, atendimento especializado e políticas públicas voltadas ao segmento.
Em todo o país, 524 candidatos declararam à Justiça Eleitoral ter algum tipo de deficiência. Desse total, 208 informaram deficiência física, 112 visual, 59 auditiva e 145 foram classificados em outras categorias, que incluem o autismo.
Esses candidatos disputarão os votos de cerca de 158,74 milhões de eleitores no primeiro turno, marcado para 4 de outubro. Entre os eleitores, aproximadamente 1,97 milhão têm algum tipo de deficiência, número 42% maior que o registrado em 2022, quando eram cerca de 1,38 milhão.
Mais diagnósticos e maior visibilidade
Para Simone Alli Chair, terapeuta, mãe de duas filhas autistas e presidente da Associação Vozes Atípicas (AVA), o aumento das candidaturas acompanha a maior visibilidade conquistada pelas pessoas com deficiência e pelo movimento da neurodiversidade.
Segundo ela, o crescimento dos diagnósticos também contribuiu para que mais pessoas sejam reconhecidas dentro do espectro autista. “Graças aos avanços da ciência, hoje são diagnosticados casos que, até há pouco tempo, não eram considerados. Isso não significa que o número de autistas, por exemplo, é maior, mas sim que, antes, os casos eram subnotificados”, afirmou.
Na avaliação da ativista, o aumento da presença desse grupo nas eleições pode representar um avanço na representação política, mas também exige atenção dos eleitores para evitar que a pauta seja utilizada apenas como estratégia eleitoral. “Muitos candidatos não estão interessados em realmente nos ajudar, mas sim em arregimentar eleitores”, disse Simone.
Ela defende que os eleitores avaliem não apenas as promessas de campanha, mas também a experiência, o histórico e a viabilidade das propostas apresentadas pelos candidatos.
Para Simone, políticas públicas voltadas às pessoas autistas precisam considerar as especificidades de cada caso, incluindo a qualificação dos profissionais e a continuidade do atendimento.
Candidaturas buscam espaço em nichos eleitorais
O cientista político e sócio-fundador do Instituto Vox Populi João Francisco Meira avalia que o crescimento de candidaturas ligadas à neurodiversidade e aos direitos das pessoas com deficiência também está relacionado à busca por diferenciação nas eleições proporcionais.
Nesse modelo, estão as disputas para deputado federal, deputado estadual e deputado distrital. Como há um grande número de candidatos concorrendo às mesmas vagas, segundo Meira, grupos específicos do eleitorado podem se tornar estratégicos para quem busca ampliar sua votação. “Os candidatos proporcionais buscam se diferenciar em meio a centenas, milhares de outros candidatos que oferecem mais ou menos um mesmo cardápio”, explicou.
O aumento das candidaturas de pessoas autistas ocorre, portanto, em meio a uma maior presença de pautas relacionadas à inclusão, à acessibilidade e aos direitos das pessoas com deficiência no debate eleitoral.
Para além do número de candidatos, a participação desse grupo nas eleições também representa uma disputa por espaço de representação e pela inclusão de demandas específicas no processo de formulação de políticas públicas.
