A candidata ao Governo do Distrito Federal Paula Belmonte (PSDB) levou ao último debate antes do primeiro turno, na noite desta terça-feira (29), a botina que recebeu da governadora e candidata à reeleição Celina Leão (PP) e transformou o presente em uma nova cobrança sobre dois temas que vêm marcando a campanha: os R$ 1,4 milhão repassados por uma prestadora de serviços do GDF a uma empresa ligada ao marido e à filha de Celina e a divulgação das demonstrações financeiras do Banco de Brasília (BRB). Celina não compareceu ao debate da TV Globo, realizado a cinco dias da votação. “Gente, hoje nós trouxemos a bota. A bota que a Celina mandou para mim, mas ela não trouxe bota, nada. Nem balanço do BRB, não botou médico, não botou política pública”, afirmou Paula.

Na sequência, a candidata voltou ao caso envolvendo a Faceng Engenharia. “Fiquei sabendo que o marido dela recebe uma mesada de R$ 100 mil por mês de uma empresa que foi contratada pela Vice-Governadoria para servir café”, disse Paula, antes de concluir: “Não quero essa bota não, porque eu não sei de onde o dinheiro veio”, desabafou.

A declaração de Paula se refere aos pagamentos feitos pela Real JG Facilities à Faceng Engenharia. Documentos fiscais divulgados pela imprensa apontam 14 notas de R$ 100 mil cada, totalizando R$ 1,4 milhão, entre maio de 2025 e junho de 2026. Fabrício Faleiro Ferreira, marido de Celina, e Bruna Victória Leão Machado de Araújo, filha da governadora, integram o quadro societário da Faceng.

O caso levou candidatos adversários de Celina, entre eles Paula Belmonte, Leandro Grass, Ricardo Cappelli e Kiko Caputo, a apresentarem representação ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) pedindo apuração dos repasses.

Empresa que fez os repasses possui contratos com o GDF

Os R$ 1,4 milhão não correspondem a pagamento direto do Governo do Distrito Federal à Faceng.

Os valores foram transferidos pela Real JG Facilities, empresa privada que mantém contratos com órgãos públicos do DF, para a Faceng, também privada.

Há, entretanto, uma relação contratual entre a Real JG e o governo.

Documento oficial do Distrito Federal mostra que a Real JG firmou o Contrato nº 28/2024 com a Vice-Governadoria, destinado à prestação de serviços de copeiragem, incluindo copeiro, cozinheiro e garçom, com fornecimento de insumos e equipamentos.

A empresa também aparece em contratos de valores elevados com outros órgãos do governo. A Secretaria de Economia, por exemplo, registra contratos da Real JG para serviços de limpeza, conservação e fornecimento de mão de obra.

É essa sequência contratos públicos da Real JG e repasses privados da empresa à Faceng que passou a ser questionada pelos adversários da governadora.

Os documentos disponíveis, porém, não demonstram, por si só, que dinheiro público tenha sido transferido diretamente à empresa da família de Celina nem comprovam ilegalidade nos pagamentos entre as duas empresas.

Da botina ao balanço do BRB

A história da botina começou ainda em agosto. Durante um debate realizado em 9 de agosto, Paula provocou Celina ao falar das cobranças sobre o Banco de Brasília. Dois dias depois, a governadora publicou que enviaria uma botina de presente à adversária.

Paula recebeu o presente, agradeceu e respondeu com outra provocação: “Recebi a bota, recebi o cartão, muito grata. Mas o que eu queria receber mesmo é o balanço do BRB. Bota na rede.”

Mais de um mês depois, a botina reapareceu justamente no último debate antes da votação.

Desta vez, Paula associou o objeto às cobranças sobre o BRB e aos pagamentos de R$ 1,4 milhão envolvendo a empresa de sua família.

Ausência de Celina vira alvo no último debate

Celina decidiu não comparecer ao debate desta terça-feira. A ausência fez com que as cobranças dirigidas à governadora fossem feitas sem resposta direta no encontro.

Além de Paula, Leandro Grass (PT), Ricardo Cappelli (PSB) e Kiko Caputo (Novo) criticaram a ausência e abordaram questões relacionadas ao BRB e à gestão do governo.

A governadora justificou a ausência afirmando que seria alvo de ataques dos adversários. Paula, por sua vez, aproveitou o espaço para retomar uma cobrança que começou com o balanço do BRB e agora também alcança os repasses à empresa ligada à família da governadora.

A reportagem procurou a campanha de Celina Leão para que a governadora possa se manifestar especificamente sobre as declarações feitas por Paula Belmonte no debate, esclarecer a natureza dos serviços prestados pela Faceng à Real JG e responder aos novos questionamentos sobre os repasses de R$ 1,4 milhão.

O espaço permanece aberto para manifestação da governadora, de sua campanha e das empresas citadas. O posicionamento será acrescentado à reportagem assim que for encaminhado.