Adolescente de 15 anos morre após sequência de atendimentos por dor de dente no DF; polícia investiga o caso
21 agosto 2026 às 11h32

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A adolescente Maria Luiza Abreu Estevam, de 15 anos, morreu na noite de quinta-feira (13), em Brasília, após uma sequência de atendimentos médicos iniciada por causa de uma dor de dente e posterior agravamento do quadro clínico. A jovem procurou unidades de saúde em Sobradinho por mais de uma vez, foi transferida em estado gravíssimo para o Hospital da Criança de Brasília e sofreu cinco paradas cardiorrespiratórias antes de morrer. A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) investiga o caso como morte suspeita, após exames identificarem alterações que ainda precisam ser esclarecidas.
A reportagem apurou, com base nos relatos da família e em documentos relacionados ao atendimento e à investigação, que a história começou semanas antes da morte. Em 20 de julho, Maria Luiza passou por um procedimento para obturar um dente com cárie. Depois disso, passou a apresentar dores intensas e inchaço em outro dente.
No dia 29 de julho, a adolescente procurou uma Unidade Básica de Saúde (UBS) de Sobradinho II. Na ocasião, recebeu prescrição de antibiótico. Segundo a família, houve melhora inicial, mas os sintomas voltaram a se intensificar.
Atendimentos na UPA
Em 9 de agosto, Maria Luiza foi levada à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Sobradinho II com dor e problemas relacionados ao dente. Segundo informações obtidas pela reportagem, foi realizada uma drenagem de abscesso dentário e prescrito outro antibiótico. A família afirma que a adolescente recebeu orientação para continuar o tratamento.
Três dias depois, em 12 de agosto, a jovem voltou à mesma UPA, desta vez com um quadro mais grave. Ela apresentava náuseas, falta de apetite, dores fortes pelo corpo e formigamento no rosto. Familiares relatam ainda que ela chegou a vomitar e desmaiar de dor enquanto estava na unidade.
Diante da piora, Maria Luiza foi encaminhada para a Sala de Estabilização, conhecida como Sala Vermelha. A equipe médica solicitou à Central de Regulação da Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) a transferência para uma UTI pediátrica.
Na tarde do dia seguinte, 13 de agosto, por volta das 17h30, a adolescente foi transferida para o Hospital da Criança de Brasília (HCB), onde deu entrada em estado gravíssimo e passou a receber atendimento na UTI pediátrica.
Apesar das medidas adotadas pela equipe médica, o quadro evoluiu rapidamente. Maria Luiza sofreu cinco paradas cardiorrespiratórias. Uma delas durou 24 minutos e 50 segundos; outras duas tiveram duração de aproximadamente quatro minutos cada. A morte foi declarada às 20h20 do mesmo dia.
O que os exames encontraram
Os documentos aos quais a reportagem teve acesso mostram que a causa da morte ainda não está definitivamente estabelecida.
O relatório do Serviço de Verificação de Óbito (SVO) aponta evolução para sepse, quadro grave provocado por uma resposta do organismo a uma infecção. Em uma das documentações analisadas, há indicação de que a infecção generalizada poderia estar relacionada a uma endocardite bacteriana de origem odontológica.
Além disso, um painel de vírus respiratórios realizado após a morte identificou a presença de rinovírus e influenza B.
Outro achado chamou a atenção durante a necropsia: cerca de 300 mililitros de sangue estavam acumulados dentro do tórax, ao redor do pulmão. A alteração caracteriza um hemotórax e, segundo o relatório, o sangramento pode ter contribuído para a morte.
Por causa dessa constatação, o SVO não concluiu imediatamente a documentação do óbito e orientou a família a procurar a polícia. O caso foi registrado no domingo (16), e o corpo passou pelos procedimentos relacionados à investigação médico-legal.
Na declaração de óbito, assinada em 17 de agosto por um médico-legista do Instituto de Medicina Legal (IML), a causa da morte aparece como “óbito a esclarecer por exames complementares”.
Isso significa que, até o momento, não há uma conclusão definitiva sobre o que provocou a morte da adolescente. A investigação policial deverá considerar os atendimentos realizados, os exames, os achados da necropsia e os demais elementos que possam ajudar a esclarecer a sequência dos acontecimentos.
Família questiona atendimentos
O pai de Maria Luiza, o autônomo André Estevam Abreu, questiona se a adolescente poderia ter recebido atendimento hospitalar antes da transferência e se a evolução do quadro poderia ter sido evitada.
Segundo ele, a família percebeu que os sintomas apresentados pela filha não pareciam compatíveis apenas com uma dor de dente.
“Podia ter sido evitada a morte dela. Podiam ter encaminhado ela logo para o hospital na segunda vez que ela foi à UPA. Não é normal. Eu não consigo explicar a dor que estou sentindo pela perda da minha filha”, afirmou.
Em outro relato, André disse que a filha tinha apenas asma controlada e era considerada saudável. Para ele, a sequência de sintomas e o agravamento repentino do quadro levantam dúvidas que precisam ser respondidas pela investigação. “Eu não acredito que a minha filha se foi por causa de uma dor de dente”, lamentou.
A família também questiona se a gravidade da situação foi identificada no momento adequado e se todos os procedimentos necessários foram adotados antes da transferência para o Hospital da Criança.
O que diz o Iges-DF
O Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (Iges-DF), responsável pela gestão da UPA de Sobradinho, lamentou a morte da adolescente e afirmou que permanece à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.
Segundo o instituto, a responsável informou à equipe assistencial que Maria Luiza estava em tratamento odontológico havia cerca de 20 dias. No dia 9 de agosto, ela procurou a UPA para atendimento odontológico de urgência, recebeu assistência e medicação e foi orientada sobre a necessidade de continuidade do tratamento especializado.
Ainda conforme o Iges-DF, na noite de 12 de agosto, a adolescente retornou à unidade apresentando vômitos e dor abdominal. Ela foi submetida a avaliação médica, exames complementares, monitorização e medidas de suporte consideradas necessárias para o quadro apresentado.
Com a evolução da condição clínica e as alterações identificadas nos exames, a paciente foi encaminhada para a Sala Vermelha. A equipe solicitou à Central de Regulação da SES-DF uma vaga em UTI pediátrica.
A transferência para o Hospital da Criança ocorreu em 13 de agosto, por volta das 17h30.
O Iges-DF afirmou ainda que, por causa do sigilo médico, da privacidade da paciente e da legislação vigente, não divulga informações clínicas individualizadas além das necessárias para o esclarecimento dos fatos.
O instituto declarou que permanece à disposição das autoridades competentes e que fornecerá os esclarecimentos solicitados durante a apuração.
Investigação
A Polícia Civil do Distrito Federal trata o caso como morte suspeita. O registro da ocorrência foi feito após a orientação do SVO, diante do achado do sangue acumulado na região torácica e da necessidade de esclarecer se o hemotórax teve relação direta com a morte.
A documentação analisada pela reportagem indica que ainda são necessários exames complementares para determinar a causa definitiva do óbito.
A investigação deverá esclarecer, entre outros pontos, a origem do sangramento identificado na necropsia, a relação entre a infecção apontada nos documentos e o quadro odontológico, o impacto dos vírus detectados e a evolução clínica da adolescente desde os primeiros atendimentos.
Até que esses elementos sejam concluídos, não é possível afirmar que a morte tenha sido causada exclusivamente pela infecção odontológica, pelos vírus identificados, pelo hemotórax ou por eventual falha no atendimento médico.
A apuração policial e os exames médico-legais deverão determinar a causa da morte e verificar se houve ou não responsabilidade relacionada aos atendimentos prestados à adolescente.
